terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

para que amendoeiras pelas ruas?

Observava as coisas que giravam a sua volta, vozes e barulhos de copos misturavam-se enquanto pegava mais um cigarro. As pontas dormentes dos dedos falhavam procurando o isqueiro, tinha certeza de tê-lo deixado em cima da mesa. Olhou para os lados, confusa, brincar com o cigarro apagado na boca começara a perder a graça. Escutou uma pequena risada, reconheceu o timbre da voz no fundo, conseguia vê-lo brincar com o pequeno objeto azul com o canto dos olhos enquanto ainda remexia a bolsa.
“Você realmente deveria parar de pegar meus cigarros.”
“E você deveria parar de pegar meu isqueiro.”
“Não gosto do gosto de cigarro em você.”
“Ninguém vai te obrigar a me beijar depois.”
Fez uma pequena careta enquanto pegou um cigarro do maço e acendeu antes de devolver o isqueiro, gostava quando encostava nas pontas dos dedos gelados dela. Sentou-se ao seu lado, achava divertida a forma que tragava, fazia um pequeno biquinho, ficava evidente a doçura que tanto gostava.
“Para de me olhar. Que nervoso.”
“Desculpa, é que acho engraçada a forma que você traga. Faz um biquinho.”
“Sim, eu sei. Não consigo tragar com a boca fechada.”
“Que bonitinha.”
Olhou-o reprimindo o comentário, mas acabou rindo, era difícil não fazê-lo. Esvaziou mais um copo, a cabeça começava a girar lentamente, os músculos do rosto amolecendo deixando a expressão mais suave. Encolheu-se com o vento frio, esquecera o casaco em casa e não contava com o frio, ainda era verão no Rio. Deixavam a conversa fluir, um assunto seguia o outro naturalmente, brincavam com os dedos pela mesa, soltando para entrelaçá-los novamente.
“Daqui a pouco vão nos expulsar daqui.”
“Que?” Havia se distraído e esquecido de olhar em volta, já estava quase tudo vazio, provavelmente já havia passado da hora de ir pra casa.
“Vamos pagar a conta?”
“Será que se a gente insistir de ficar aqui eles não expulsam a gente e esquecem da conta?”
“É uma boa idéia, mas acho melhor não. Vou lá resolver isso. E não tenta discutir.”
“Te odeio.”
Puxou-a para perto, beijando seu rosto enquanto se aninhava. Gostava do cheiro do seu cabelo,
mesmo quando coberto pelo odor metálico da tinta ainda era possível senti-lo.
“Odeia mesmo?” Sussurrou perto do ouvido.
“Só quando faz delicadezas desnecessárias, o resto do tempo você complica demais.”
Beijou-a nos lábios, ignorando o gosto amargo dos cigarros, segurando o corpo amolecido pela troca de calor.
“Sabe, acho que até o gosto de cigarros não fica mal em você. Já volto.”
Levantou-se e foi cuidar da conta, ela esvaziava a ultima tulipa mordendo a parte inferior dos lábios, sorrindo com o rosto coberto pelo cabelo. Talvez fosse melhor ir para casa, mas se não ligaram até agora provavelmente estariam dormindo, então não fazia mais diferença.
“Vamos?” Falou enquanto abraçou-a por trás e deu um beijo na bochecha, sempre fazia com que corasse com isso.
Saíram abraçados, eram os últimos clientes, ela tentava roubar seu calor para afastar o frio, ele gostava de tê-la perto daquela forma. Andaram pelas ruas vazias, a madrugada avançara enquanto perdiam-se do tempo com cervejas e cigarros, era possível perceber o céu clareando no horizonte. Caminharam sem rumo por algum tempo, em silencio, acompanhados pelo som dos poucos carros e ônibus que passavam, nada que os tirasse da aura que os envolvia.
“Para onde vamos?” Ela perguntou, despreocupada, percebendo que o tirava de algum pensamento.
“Não sei. Não tenho que te levar pra casa?”
“Agora? Não faz mais diferença. Já fui seqüestrada.”
“Hm.” Murmurou enquanto afundava o rosto no seu cabelo, pensando no que fazer agora. “Quer comer alguma coisa?” Lembrara de não tê-la visto comer desde cedo, quando se encontraram.
“Não estou com fome não, mas se quiser te acompanho.” Deu um sorriso sincero, ele tentou decifra-lo por algum tempo, ambos acabaram acreditando. Seria um tanto inútil mentir sobre esse assunto.
Dobraram mais uma esquina, era uma rua de prédios grandes com uma grade dourada delimitando a calçada. Ele aproveitou a pequena distração e envolveu-a, puxando a cintura para que ficasse a sua frente e conseguisse beija-la. Conduziu-a até a grade, sem separar os lábios, queria sentir seu corpo junto ao dela. Ficaram ali, naquela guerra de línguas, mãos, pernas e sexos, despreocupados com o mundo à volta, havia desaparecido há horas. Desprendeu seus lábios do dela, beijou toda a face, até chegar ao seu ouvido.
“E agora?”
“E agora eu sou sua.”

sábado, 2 de fevereiro de 2008

earthquake.

A verdade é que eu gosto. Gosto dessa dormência que domina o corpo, do azedo por trás dos dentes, de ter meus músculos relaxados e minhas palavras descontroladas. Gosto de morder meu lábio inferior com força e não sentir, de estalar os dedos sem ter a menor idéia se doem, de olhar para você e sorrir.
Gosto até demais.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Encolheu e encolheu até sumir.

Secaram-me as palavras, como quando se torce uma blusa molhada em uma chuva de verão, arrancaram-me cada gota. Pingou e pingou até sobrar um pequeno pano úmido, eu. Pensamentos apenas arranham, coçam nos cabelos, mas não me escorrem pelos dedos. Meus medos não têm mais formas, literárias ou não.
A pequena menina de cabelos vermelhos e pele branca fugiu, escondeu-se em uma brincadeira. Ou talvez realmente tenha partido, já era hora. Era? Não sei.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

I just wonder...

O vento gelado bagunçava seus cabelos e fazia com que se encolhesse dentro do casaco, por que estaria demorando tanto? Mudava as músicas no ipod sem nem ouvi-las direito, começava a ficar nervosa. Sentiu o coração acelerar quando viu o carro dobrando a esquina, tentaria conseguir controla-lo quando entrasse.
“Quer carona moça?” Ele abaixou os vidros e perguntou com um sorriso sonso.
“Atrasado e ainda fazendo piadinhas, muito bonito.” Falou em um tom sarcástico enquanto entrava no carro quente, ainda tentando controlar seu coração.
“Desculpa, foi o transito.” Deu um beijo na sua bochecha fazendo-a corar.
Adorava seu cheiro, familiar de tão estranho. Evitava olhar para seu rosto, sabia que não conseguiria esconder o sorriso se o fizesse por muito tempo. Conversavam banalidades, como sempre, enchiam o carro com risadas e palavras trocadas, podiam fazer isso por horas sem nem perceber. Começava a chover do lado de fora e ela desviou seu olhar para a janela, reparando não estar indo para onde deveria.
“Se perdeu é?” Perguntou desviando o olhar das gotas de chuva no vidro e olhando para seu rosto.
“Não.”
“Pra onde a gente está indo então?”
Ele abriu um pequeno sorriso e não respondeu nada, odiava quando fazia isso. Tentou ler seu rosto, descobrir o que estava pensando, mas acabou desistindo, nunca foi boa nisso.
“Você ainda não respondeu a minha pergunta.”
“É uma surpresa. Algum problema?”
“Contanto que não inclua um matagal, facas, ou qualquer outra coisa com potencial de tortura, tudo bem.”
“Quer parar de tirar a diversão?”
Deixou o assunto morrer, concentrava-se na paisagem exterior para tentar descobrir onde estaria indo, mas nada lhe vinha à cabeça.
“Eu não vou ter que fechar os olhos ou qualquer outro tipo de coisa clichê né?”
“Por favor?!” A olhou com um sorriso sincero, ainda não conseguia descobrir o que ele queria com aquilo tudo.
“Cada dia você fica mais estranho.”
Tentava distraí-la com perguntas, evitar que ela olhasse pela janela, sabia que sua curiosidade seria um problema, mas esperava conseguir contorna-la. Reparou que suas mãos nervosas não paravam se me mexer, ajeitando a saia ou o cabelo. Pos uma das suas embaixo de uma dela entrelaçando os dedos, não olhou para seu rosto mas sabia que ela estava olhando. Estava bonita hoje, mais que o normal, talvez a ocasião a tornasse assim para ele, quem sabe, mas amava o jeito que o cabelo caia em seu rosto irritando-a.
“Posso te pedir um favor?” Ele perguntou com uma voz calma, nunca tirando os olhos da estrada.
“Depende.”
“Sempre com condições. Tem uma venda dentro do porta-luvas. Põe ela?”
“E o que você pretende fazer comigo vendada?” A voz lhe saia um pouco mais assustada e defensiva do que esperava.
“Confia em mim.” Pela primeira vez em algum tempo olhou-a nos olhos, mas não por muito tempo.
Pegou a venda no porta-luvas e amarrou-a sem apertar muito, mas era o suficiente para que não visse nada.
“Está conseguindo ver alguma coisa?”
“Para de fazer caretas, idiota.”
“Amarra direito, por favor.”
“Quem disse que não está? Não estou vendo nada, você que é muito previsível.”
“Tem certeza?”
“Ta bom, não muito, mas o suficiente.”
Sentiu o carro estacionar, não fazia idéia da onde estaria, mas pelo barulho parecia ser algum lugar fechado. Ele saiu do carro e foi abrir sua porta, ela não se moveu um centímetro. Ajudou-a a levantar e fechou a porta do carro, ela ainda se perguntando o que estaria para acontecer.
“Confia em mim?” Falou no seu ouvido, sua respiração causando-lhe arrepios.
“Confio.”
Antes que terminasse a palavra ele já havia colocado-a no colo, era tão leve que parecia não estar carregando nada.
“Estou começando a gostar disso.”
Aninhou-se em seu corpo quente, sentia-se segura em seus braços mesmo sem fazer idéia do que acontecia a sua volta.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Cade a porra do livro de reclamações? Prometeram-me um conto de fadas.

Cheguei à conclusão que não quero ninguém. Não mais. Eu me quero. Quero me querer. Não quero alguém pra ter a falsa sensação de tapar buracos, o que é o que tão desesperadamente procuro, quero EU tapar meus próprios buracos. Seu auto-suficiente o bastante para dividir isso com alguém, me compartilhar e ganhar algo em troca.
A verdade é que não tenho problemas, não suficientemente significativos, e isso me incomoda. As coisas que vivo reclamando são: fulano não me quer, deltranho também, ganhei um quilo, etc. mas nada que realmente mude algo na minha vida. Nada que me cause perdas temporariamente irreparáveis com ganhos astronômicos depois, são apenas banalidades as quais eu dou demasiada importância no final. São poucas as pessoas que nunca me ouviram reclamar do meu peso, e algumas que sabem a real importância que isso tem pra mim, mas no fim, até eu mesma sei, isso não é absolutamente nada.
Ando briguenta, resmungona, reclamona, anti-social, levemente chata e provavelmente dando atenção demais a pessoas e situações indevidas, e nem eu mesma sei a razão disso. Eu simplesmente ando de saco cheio, mas do que? Ok, essa mesmice irrita, mas a vida de quem é tão interessante assim? Todo mundo reclama, independente de quantos amigos tenha, quantas nights freqüenta, quanto se vai à praia ou se fica em casa dormindo, ou até mesmo da quantidade de álcool e outras substancias ingeridas diariamente, parece que todos então simplesmente de saco cheio, e eu pergunto, de que? Viver? Se mata.
Todos vivem falando “mas o problema não é você, são os outros”, como isso? A vida é minha, as coisas dão errado comigo, como o problema não pode ser EU? Chega um momento que fica muito difícil atribuir tudo aos outros ou a um ano merda, até para mim. Mas daí surge outra questão, qual é o grande problema? Que maldita peça me veio faltando? E onde a consigo? Em que parte eu errei e me tornei ISSO, seja lá o que for?! Não há explicações, e nada me irrita mais, porque eu acabo tendo que concordar com os outros. Mas acho que não adianta, sempre sobra aquela voz falando: não, é você mesmo, nem tenta se enganar não.
Amo a vida, com cada força em meu pequeno corpo. Não entendo como não fazê-lo, é tão simples. Não é preciso ser feliz para tal, basta só... viver. Acho o sonho de ser outra pessoa algo meio estúpido, trocar de corpo não costuma resolver problemas, só carrega-los de um lugar para outro, assim como mudar de lugar. Meu narcisismo não é total ao ponto de me amar acima de todos os seres e achar que sou simplesmente o maximo, está bem longe disso, mas não me trocaria. Aprender e errar sendo a pessoa que nasci até agora não me foi uma experiência insuportável, e duvido que algum dia venha a ser, então, pra que arriscar? Acredito não ser a única coma sensação de “cometo mais erros que o normal”, mas depois que se percebe não saber tudo de todo mundo, é mais fácil se considerar um pouquinho normal.


Isso não é algo literário. Não nasceu para ser, logo, não é. São pensamentos avulsos que cresceram até acabar.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Julie Doiron - Sweeter

Tanto tempo se passou, e eu ainda estou aqui. Tempo na verdade é algo extremamente relativo, já vivi duas semanas que me foram eternas como três meses que mais me parecem um século, mas isso não vem ao caso.
A verdade é que não teve um dia nesses três meses que eu não sentisse uma parte de mim faltando, que eu não me transportasse para muito longe em pensamento, para perto de você. Obviamente a freqüência e a intensidade disso diminuíram, como havia de ser, mas seria uma enorme mentira falar que isso desapareceu.
É tão difícil e tão fácil te falar isso que eu acabo não dizendo nada. Vou encher linhas e mais linhas aqui de nada, até conseguir achar as palavras exatas. “Te amo, estou com saudades” resume muito bem, mas não é suficiente. Me revolta a banalidade e a facilidade dessa frase, torna tudo muito mais indiferente do que realmente é.
Não sei o que você está pensando agora, o que está vestindo, sentindo, já esqueci seu cheiro. Gosto de lembrar de você sorrindo, com o cabelo preso, que nem naquela foto do seu álbum, exatamente daquela forma. Amo lembrar do carinho no seu olhar, de como aquilo me fazia bem, me fazia eu. Provavelmente seja isso o que eu sempre mais amei sobre você, a forma que era fácil ser eu mesma. Como tudo o que eu falava que na minha cabeça deveria te causar repulsa, na verdade só o tornava mais interessado em mim. Era completamente incompreensível, ainda é, mas reclamar equivaleria a um suicídio.
Contar dias incertos já se tornou minha rotina, com números cada vez menores, assim como o coração. É verdade que tudo pode ter mudado, não me importa, só quero te ver sorrir. Nunca fui de pedir muito, ou qualquer coisa, mas preciso muito ver você sorrir de novo.
Por favor, não pense que tudo o que fiz foi sofrer aqui no Rio, claro que não. Ambos prometemos uma coisa e eu como a boa menina que sou cumpri isso, por mais desnecessário e incomodo que me fosse ao inicio. A vida não parou, houve amizades, pessoas, experiências, “amores” novos. Mas sempre houve você, lá dentro, guardado, voltando quando tudo parava, quando o mundo não girava tanto.
Ai eu volto lá para o inicio, não teve um dia que eu não quisesse você. Acima de qualquer pessoa, eu queria e ainda quero você. Devo sentir muito mais a sua falta que você imaginava, ou talvez que você considere “saudável”, mas é a verdade, desculpa, eu sou assim.
Acho que já cansei de não falar nada, mesmo tendo dito tanta coisa. Eu amo você, não tem jeito, foi inevitável, involuntário. É um amor tão grande que eu tenho medo de medir, só resumo em “grande”. Não direi eterno, infinito ou qualquer outra hipérbole exagerada, não vou mentir. Mas ele existe, se existe, mais sólido que eu imaginei de inicio, e é seu.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Eu nunca disse as (terriveis) palavras que voce merecia escutar.

Ela virou o rosto, devagar, primeiro olhava para frente com o queixo afundado no travesseiro, agora observava a imensidão daquele quarto de motel barato. Havia se cansado daquele rosto, daquela mesma expressão, se tornara enfadonho. Ele não entendia, não via, continuava a acariciar-lhe as costas nuas.
“Não quero mais te olhar.”
“Que?” Ele não entendera, era uma frase um tanto estranha, nunca a ouvira antes.
“Não quero mais olhar para você.”
“Por quê?”
“Porque não. Não tenho muitas razões, se é que as tenho, só não quero.”
Parou de acariciar suas costas, ainda tentava entender o que estava sendo dito ali. Ela respirava devagar, inexpressiva, imóvel. Puxou-a pelo ombro, virando-a de barriga para cima, mas não adiantava, mesmo no teto espelhado ainda não olhava para ele. Escalou-a, ficando entre a cama e o espelho, olhando nos olhos. Esperou uma reação, mas nada aconteceu, era como se o peso daquele corpo não existisse, como se ainda contasse os ossos da costela pelo espelho.
“Queria conseguir fazer com você o mesmo que fez comigo.” Ela falou, depois de muito tempo, a voz calma, cortando como uma faca afiada.
“Como assim?”
“Queria te marcar do mesmo jeito que você me marcou, te machucar, mas da mesma forma. Daquela que deixa uma cicatriz incomoda, feia.” Uma única lagrima escorreu do olho esquerdo, devagar. Sabia do pânico que causaria nele, a vontade de correr, e nunca desejou tanto que o fizesse.
“Mas...” Tentou falar, balbuciando, sem saber o que responder.
“Não. Não quero que você responda nada, sempre piora.”
“Está cansada?”
“Não.”
Então ele a possuiu, beijando o pescoço, não havia nada mais a fazer.