domingo, 15 de junho de 2008

don't see what anyone can see in anyone else but you


E tudo começou assim: lá estava eu, com aquele vestido cinza e os sapatos pretos, naquele bar até então ignorado na cidade. Salvo algumas pessoas, aquela me era uma mesa desconhecida, mesmo que amigável. Por entre os rostos e corpos espremidos com mãos encostadas em gotas de bebidas pela mesa, estava o seu. Familiar de tão estranho. Na verdade, não me era nada estranho, apenas familiar. Pus-me a te observar por algum tempo, discretamente para que não percebesse. Lembrei-me de já tê-lo visto antes, trocado poucas palavras sem importância, sabia que não lembraria. Afastei a memória e o pensamento de te recorda-la, provável que por vergonha.
Acho que era tão obvio meu interesse por você que logo fora arquitetado um plano para que percebesse. Não por mim, obvio. Até hoje não entendo como não percebeu. Com o passar do tempo encontrei-me conversando com alguém maior que eu calculara antes como se o conhecesse desde a infância, apesar de ser um mero desconhecido com passos tão rápidos quanto os meus. Não acharia impossível me apaixonar por você logo ali.

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E então você me beijou. Não sei o contexto, mas sei que o fez. Estava tonta e enjoada, então não consegui ficar muito tempo, por mais que quisesse. Pegamos copos d’água na cozinha e meu estômago começava a mostrar sinais de estrago pela vodka intra-venosa tomada anteriormente. Idas ao banheiro, purgações e pedidos de desculpa rechearam o resto da noite, enquanto tentava achar qualquer razão para que continuasse ali enquanto me degradava. Acabei por adormecer em seu colo algum momento, incrivelmente a pedidos seus que o fizesse.

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quinta-feira, 22 de maio de 2008

just like a song in my heart


Quebrada entre a saudade e a negação costurei os lábios com cetim rosado, evitando que escorressem palavras adocicadas pelo tempo. O estômago invadido e estourado repetidamente pelas borboletas amarelas contagia os outros órgãos, o coração pulsa-me mais vermelho agora, expulsando o cinza do ranço preso em suas paredes.

O oxigênio em meus pulmões tornou-se insuficiente, as células morrem em meu peito abrindo espaço, deixando os ramos com flores roxeadas crescerem. Já invadiram-me a alma. A visão confusa pelas estrelas brilhantes em meus olhos titubeia-me pelos cantos, ofuscam sentidos enquanto giro com a saia rodada sem parar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

the truth is, that I miss you so.




Esboçavam-se meios sorrisos por entre as meias palavras. Eram beijos pela metade, seguidos de amores inacabados. Não havia fim ali, ou inicio, havia medo. Corpos trêmulos de calor e frio com corações rachados dentro, desculpava-se pelas despedidas ao amanhecer.
Cedeu-se palavras ao outro, espaços internos, doces da madrugada fria. Abriu, com dedos finos das mãos geladas, pequenas caixas avermelhadas, já cobertas de poeira, revelou-se luz e sombra.

domingo, 13 de abril de 2008

we sure are cute for two ugly people



Se pudesse contava-te segredos até o amanhecer. Sussurava-os um a um em seu ouvido, mesmo que não estivesse mais a escutar. Contaria de vidas e mortes passadas, floria toda primavera e matava cada inverno. Alegrava-me com as paredes, abriria grandes sorrisos para que só elas vissem, detalharia cada imperfeição sua.

( desenho: www.fotolog.com/griffonnages)

segunda-feira, 31 de março de 2008

[ Olivia Broadfield - It's a long way ]

Lutei um dia inteiro contra a vontade de escrever isso. Na verdade, não foi só um dia, deve fazer algumas semanas agora, mas só há um dia essa vontade realmente me incomoda.
É verdade que não tenho nada a falar, nada que resolvesse as coisas ou fizesse diferença, nem muito menos algo que queira ler. Acho que não queria ler nada, queria apenas me ver desaparecer do mesmo jeito que surgi, ou talvez quem sabe aos poucos, como um pôr-do-sol de inverno.
Seria mais fácil se soubesse, se sumissem uma a uma as suposições e as idéias, secassem as lagrimas no rosto. Queria certezas, palpitações de um coração dilacerado, tiros certeiros na sala escura. Costas verbais a longitudes físicas.
Desistências, resistências, reticências a parte, houve amor. Não, não amor, houve junção. Falta de espaços imaginários ou reais, sincronia em tempo e palavras. Existiu, em um pequeno aquário fictício, o desespero de dois que, na verdade, eram um.
Não há mais palavras, só vontades. Isso é o inicio e o fim de tudo. É meu ápice que precede minha queda.

domingo, 23 de março de 2008

Cantou-se a mesma musica para as borboletas do infinito, as asas amarelas arrepiavam.

Deixou-se que o cadeado comido pela ferrugem caísse ao chão, não havia mais lógica para fechaduras. Estava tudo aberto, jogado, arregaçado. Eram como papeis cortados jogados em uma bela paisagem, girando e voando até cair.
Espalhou os cacos, contou-os, observou suas cores e formas. Não havia mais como junta-los, eram apenas uma sucessão de acontecimentos, jamais poderia se dizer da onde vieram.
Desatou um a um os nós do cabelo. Despiu do casaco dor de carmin, espantando o inverno. Calou-se das banalidades protetoras, de nada mais lhe serviam. Sem o frio logo vem o calor, trazendo o abrir da primavera. Cores talvez a levassem dali.



Os lírios desabrochados pela luz derreteram-se no vento, semeou o ar com perfume e pólen.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Did you take the time to realize?

Daquelas duas mãos que se tocaram, como tantas outras já o fizeram sem perceber, nasceram os sorrisos e as caricias trocadas em murmuros silenciosos. As ruas desfilavam tristes com o céu alaranjado nos olhos cansados, desconcentrados de tudo. Da tarde ínfima surgia o brilho da noite, perguntava quantas estrelas era possível contar na piscina infinita dos olhos dilatados. Presos pela incerteza do seu amor, despediam-se com beijinhos ao horizonte, certos que errariam o destino.