Depois de tanto me perguntar, de todas as horas me indagando, descobri o problema. Era obvio, perceptível, zombava de mim pela cegueira e mesma assim não o percebia. O problema é que sinto a sua falta.
Sei que não foi a lugar nenhum, que continua nas estantes que te coloquei pelo quarto enquanto tentava encontrar o melhor lugar para você, mas simplesmente não te sinto mais aqui. É como se toda aquela energia, todo o amor, me tivesse escapado pelos dedos enquanto não percebia. E não importa o quanto procure e remexa por ele, seja em gavetas ou no fundo dos seus olhos, não vejo em lugar nenhum. Mesmo em palavras consigo senti-lo esvaecer.
Talvez não o tenha perdido, ou jogado fora, apenas o esteja guardando, afogado por todas as outras coisas que nos assolam, em alguma caixa empoeirada pelos armários. Não sei, mas é disso que tento me convencer todos os dias.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
it's all for you...

Assoprou a sua pele devagar, desenhando um traço pelas costas, com cuidado para não acordá-lo; gostava de vê-lo dormir com aquela expressão, tranqüilo, alheio a tudo. Quedou-se a ficar ali, deitada ao seu lado, tentando ritmar as respirações, assim como ele fazia com os passos quando andavam pela rua, compensavam assim a falta de sincronia no resto do tempo. Ainda era quase noite lá fora, gostava do lusco-fusco com chuva, era como uma pequena canção de ninar, a qual ela sabia todas as notas e cantaria até que acordasse.
Ele abriu os olhos devagar, como se ainda cansado de tanto dormir, e assustou-se com os dois olhos que o observavam tão de perto, nunca tivera coragem de reclamar dessa mania, por mais que o incomodasse.
“Bom dia....” Falou ainda dormindo, sem certeza se queria dialogar ou apenas voltar a dormir.
“Bom dia dorminhoco. Dormiu bem ou te chutei demais?”
“Mais ou menos, mas consegui dormir, é só conseguir controlar as suas pernas de não caírem que o resto da noite fica tranqüilo.” Olhou rapidamente pela janela e viu o dia nublado ainda por nascer, com muita pouca luz ainda “Que horas são?”
“Não sei, mas ainda não amanheceu. Por isso não te acordei. Volta a dormir amor.”
“Você dormiu?”
“Pouco.”
“Por isso que eu estava dormindo então.”
Ambos riram um pouco, bem baixinho, podiam acordar algo pela casa, mesmo que esta como sempre estivesse vazia. Olharam-se por algum tempo, ele com os olhos fechados, mas sabendo exatamente quais seriam suas expressões e movimentos, e como, daqui a pouco, ela beijaria de leve as suas bochechas e se aninharia no corpo dele, sempre esperando alguma palavra ou gesto que confirmasse seu amor por ela, apesar deste já ter sido comprovado há anos. Ele apenas a abraçou e cheirou seus cabelos, gostava de deixá-la no mudo suspense.
“Você não vai dizer, né?” Ela perguntou com a voz sonolenta.
“Dizer o que?”
“Nada não...”
E apenas se entregou a dormir, estava cansada, e sabia que até que ele o dissesse seria insistência demais, por mera implicância. Ambos já sabiam como o outro funcionava, ele conhecia a insegurança dela, e ela o resguardo dele, então gostavam de brincar com isso. Seu amor não teria graça sem isso, sem essa doce habilidade de jogar e entender um com o outro, mesmo que na maior parte das vezes não se compreendessem.
“Eu te amo.” Ele falou baixinho, no pé do ouvido, mas só depois que a ouviu dar um leve som de (quase) ronco, um dos tantos barulhos estranhos que fazia.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
and it was all yellow...

Sentou-se na varanda da casa e deixou a porta aberta, queria que a poeira do verão entrasse. Sorriu para a sombra das duas árvores a sua frente, lembrava de já serem grandes quando ela ainda era apenas uma pequena semente em sua mãe, como papai sempre tentava explicar, e se perguntava quanto tempo as arvores vivem, e se é mais agradável a vida lá em cima que aqui em baixo.
Gostava do cheiro dessa estação, apesar de não gostar do calor, era um cheiro seco e morno, não sabia explicar, e o cantar das cigarras sempre a fazia pensar no natal, elas sempre cantavam alto nesse dia, por alguma razão. Passaria todas as tardes sentada naquela cadeira de balanço se pudesse, sem fazer nada, talvez com um livrinho ou outro, e alguns copos de suco e chá gelado, mas apenas apreciando o aroma. Também lhe agradava o amarelado que as coisas tinham por essa época do ano, é como se o calor se manifestasse em tudo assim, compensando-lhes pelo desconforto e o cansaço, às vezes era isso mesmo.
Prestou atenção nos sons a sua volta por alguns instantes, parou de respirar o máximo que pode para não atrapalhar com nenhum ruído, era uma pequena sinfonia tão bonita, sua de tão secreta. Havia os pássaros cantando e piando pelo jardim, alguns melhor que outros, os micos procurando por comida pulando de galho em galho, o canário dos avós cantando no quintal de trás, a avó cantarolando pela cozinha enquanto fazia algo gostoso para mais tarde, e bem no fundo um leve zumbido da tv ligada no andar de cima enquanto o avô assistia o futebol, e depois de algum tempo e um quase sufocamento, a seu próprio som de existir fundindo-se a tudo. Essa seria uma atividade que faria pelo resto da vida, observar como tudo se conecta mesmo quando não se percebe, e apenas é preciso um pouco de atenção para ver, ou ouvir.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Sinto tua falta, todos os dias. Não importa se estás presente ou não, apenas a sinto, como um vazio interno. Acho que a minha ausência se torna a tua, automática e invariavelmente, minha ausência de reflexos e sensações se tornam teus, pois quando os faz, não estou lá para senti-los. E isso, infelizmente, sou eu e não você.
Não ha nada a se fazer a respeito, nada a se consertar, apenas a minha falta de sujeito. Tornei-me uma frase impessoal, regada de verbos e conectivos, mas ninguém a quem endereçá-los. Estou fora de mim, e não sei aonde fui parar. Perdi-me por entre as ruelas da cidade ou em alguma página dos tantos livros que folheio diariamente. Sei que estou imóvel, esperando ser encontrada. E mergulho nos olhos de todos te procurando, mas nunca está por lá. Acho que só lhe encontrarei nos teus, que há tanto não cruzam com os meus.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
was it a dream or was it a lie?
E assim seu coração foi roubado. Colocaram-no em uma caixinha e saíram a velejar, sem muita pressa e com bastante calma, não consideravam aquele um objeto que uma pessoa como ela sentiria falta. Afinal, estava jogado pelo chão quando o encontraram. Talvez isso classificasse o ato mais como um empréstimo a longuíssimo prazo que um roubo propriamente dito, consideravam-se até fazendo um grande favor tanto a propriedade quanto a proprietário. Enfim, desimportante razões e acasos, o importante é que este, seu coração, já não se encontrava mais na posse de sua dona.
E esta? De principio não deu muita atenção ao fato, “é melhor assim” repetia mentalmente, afinal, aquele já estava todo quebrado mesmo. Sempre considerava o fato de governar sem um, copiar seus companheiros de oficio e jogá-lo fora, descartá-lo em prol do benefício e progresso (próprio. Palavra sempre omitida, mas muito bem escutada nos bastidores), não entendia porque não conseguia, a razão estúpida por tal apego emocional causada pelo próprio, mas agora, tudo se encontrava resolvido.
Após alguns meses, quiçá alguns dias diziam os mais íntimos, este lhe fez muita falta. Não entendia a lógica do raciocínio cru como lhe era apresentado agora, como o cinza jamais se torna vermelho ou azul, nem mesmo naqueles dias em que se encontrava distraída, estes agora tão raros. Sentia-se mecânica, programada, com um constante gosto acido na ponta da língua e pronto a espirrar no primeiro que aparecesse. Verdade era que seu povo progredia, havia fábricas e maquinas agora, mas não pareciam mais tão felizes. Os únicos que ainda lhe mantinham contato extra-diplomático, entende-se por uma relação na qual o interesse é apenas pessoal, eram outros governantes, estes sempre a convidar para as mais pavorosas festas e orgias, todas a custo dos outros. Assustou-os vê-la freqüentando tais lugares antes tão abominados, com o rosto inerte e entorpecido, agora mais poderosa que todos lá reunidos.
O coração? Este tornou-se uma lenda após algumas gerações, diziam apenas que ela nascera sem um, e já não restava mais quem contrariasse tal afirmativa. Aos mais atentos era possível notá-lo cercando-a a s vezes, correndo ligeiro pelos corredores do grande palácio, ou então escondido a pegar sol no jardim. A verdade é que nunca abandonara de verdade a dona, voltou pouco após o seu seqüestro, mas decepcionado com o que encontrou, conteve-se em ser apenas um observador, esperava um dia notar não ser a única consciência presente naquele corpo outrora tão cheio de vida. Até hoje, em vão.
E esta? De principio não deu muita atenção ao fato, “é melhor assim” repetia mentalmente, afinal, aquele já estava todo quebrado mesmo. Sempre considerava o fato de governar sem um, copiar seus companheiros de oficio e jogá-lo fora, descartá-lo em prol do benefício e progresso (próprio. Palavra sempre omitida, mas muito bem escutada nos bastidores), não entendia porque não conseguia, a razão estúpida por tal apego emocional causada pelo próprio, mas agora, tudo se encontrava resolvido.
Após alguns meses, quiçá alguns dias diziam os mais íntimos, este lhe fez muita falta. Não entendia a lógica do raciocínio cru como lhe era apresentado agora, como o cinza jamais se torna vermelho ou azul, nem mesmo naqueles dias em que se encontrava distraída, estes agora tão raros. Sentia-se mecânica, programada, com um constante gosto acido na ponta da língua e pronto a espirrar no primeiro que aparecesse. Verdade era que seu povo progredia, havia fábricas e maquinas agora, mas não pareciam mais tão felizes. Os únicos que ainda lhe mantinham contato extra-diplomático, entende-se por uma relação na qual o interesse é apenas pessoal, eram outros governantes, estes sempre a convidar para as mais pavorosas festas e orgias, todas a custo dos outros. Assustou-os vê-la freqüentando tais lugares antes tão abominados, com o rosto inerte e entorpecido, agora mais poderosa que todos lá reunidos.
O coração? Este tornou-se uma lenda após algumas gerações, diziam apenas que ela nascera sem um, e já não restava mais quem contrariasse tal afirmativa. Aos mais atentos era possível notá-lo cercando-a a s vezes, correndo ligeiro pelos corredores do grande palácio, ou então escondido a pegar sol no jardim. A verdade é que nunca abandonara de verdade a dona, voltou pouco após o seu seqüestro, mas decepcionado com o que encontrou, conteve-se em ser apenas um observador, esperava um dia notar não ser a única consciência presente naquele corpo outrora tão cheio de vida. Até hoje, em vão.
sábado, 25 de julho de 2009
Era a isso que o amor deles se resumia; sexo, fumaças, um pouco de Strokes e mais um tanto de Radiohead. Aos mais conhecedores, o relacionamento perfeito. Os desfiles de corpos semi ou completamente nus pelo domingo de manhã, quando o sol ainda começava a invadir as persianas, após as noites gemidas pelos lençóis dava-os a perfeita sintonia. Havia brigas, de normais a dramáticas (dizem que até copos já foram atirados), e calmarias após risos e cosquinhas. Mesmo assim, ambos sempre a sorrir.
Duvidas e intrigas já foram lançadas aos dois, todas em vão. Eram inegáveis inteiros complementares, sobreviveriam um sem o outro, mas nunca da mesma forma. Talvez fosse por isso que não concordassem muito, ele dia e ela noite, ela doce e ele salgado, mas nunca discutiam sobre tentar.
Duvidas e intrigas já foram lançadas aos dois, todas em vão. Eram inegáveis inteiros complementares, sobreviveriam um sem o outro, mas nunca da mesma forma. Talvez fosse por isso que não concordassem muito, ele dia e ela noite, ela doce e ele salgado, mas nunca discutiam sobre tentar.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim;
Eu me pergunto o que encontrarei no que em que me achar, quando a névoa se dissipar e eu finalmente consiga me ver no espelho. Não no sentido real da expressão, mas no que se olha exatamente para você, vê-se órgãos e sangue pulsando e todo aquele misto de cores que forma um “eu”. Me pergunto o que haverá lá.
Conheço meus espinhos como sei o endereço da minha casa ou o nome da minha mãe, sei que crescem cada dia mais, e que alguns criam o veneno a escorrer-me pelos olhos. Porém, não sei o que guardam, o que, com tanto trabalho e desordem, crescem a volta tampando. Já soube um dia, era visível, bonito de uma forma disforme; hoje penso também que apenas crescem deixando esse espaço vazio pelo habito, o que havia lá já secou.
A grande questão é como se faz isso; se achar. Ou melhor, como consigo me perder se não pertenço a mim? A maioria das pessoas precisa de ajuda para chegar onde deseja ou para sair de onde se está, eu preciso descobrir onde estou e se esse lugar real/imaginário me significa algo, o que eu cada vez tenho mais certeza que não. E o que isso quer dizer? Eu não sei.
Sentir-se morto não é a ausência de sentimentos, mas sim a apatia em senti-los. Mesmo sendo um paradoxo em conflitos até gramaticais, me faz todo sentido. E chorar toda noite não ajudará, ou te salvará, mas repete-se o habito noite após noite, só para ter certeza que ainda se está lá. É difícil distinguir a presença da falta quando se torna invisível para si. Continuo não fazendo sentido.
Conheço meus espinhos como sei o endereço da minha casa ou o nome da minha mãe, sei que crescem cada dia mais, e que alguns criam o veneno a escorrer-me pelos olhos. Porém, não sei o que guardam, o que, com tanto trabalho e desordem, crescem a volta tampando. Já soube um dia, era visível, bonito de uma forma disforme; hoje penso também que apenas crescem deixando esse espaço vazio pelo habito, o que havia lá já secou.
A grande questão é como se faz isso; se achar. Ou melhor, como consigo me perder se não pertenço a mim? A maioria das pessoas precisa de ajuda para chegar onde deseja ou para sair de onde se está, eu preciso descobrir onde estou e se esse lugar real/imaginário me significa algo, o que eu cada vez tenho mais certeza que não. E o que isso quer dizer? Eu não sei.
Sentir-se morto não é a ausência de sentimentos, mas sim a apatia em senti-los. Mesmo sendo um paradoxo em conflitos até gramaticais, me faz todo sentido. E chorar toda noite não ajudará, ou te salvará, mas repete-se o habito noite após noite, só para ter certeza que ainda se está lá. É difícil distinguir a presença da falta quando se torna invisível para si. Continuo não fazendo sentido.
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