O pequeno bar cheirava a mofo e cigarro, a fumaça dificultava o respirar. As pessoas amontoavam-se pelo lugar, seis sentavam em volta de uma pequena mesa para quatro com garrafas espalhadas enquanto gritavam algo incompreensível, algumas juntavam-se no balcão, olhando maldosamente para os que conseguiam sentar.
Achava difícil se concentrar nos rostos a sua volta, misturavam-se uns nos outros, menos no que se encontrava a sua frente. A beleza chamava a atenção, de quem quer que fosse, com os olhos azuis e o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, chegava a incomodar quando ria das piadas sem graça feitas ao acaso, fazia-o irresistível. Batiam cigarros e esvaziavam copos, falando sobre a vida e o mundo, as mãos dadas por debaixo da mesa. Toca-lo tornava a sensação de olhá-lo quase insignificante, mesmo com as pontas dos dedos dormentes.
Encontrar as palavras parecia difícil, havia tanto e tão pouco a ser dito, pareciam perder-se na musica de fundo. As luzes em volta piscavam, a tv ligada emitia um zumbido incomodo, o ambiente dissolvia-se lentamente, como açúcar na água. Casacos escondiam corações acelerados, apertados, enquanto vozes falhas revelavam passados manchados.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Tantos textos levam o seu nome...
Chega o momento no qual tudo sucumbe. Uma a uma as rachaduras cedem na parede, abrindo espaço para a água entrar. Logo o pequeno quarto de paredes brancas e chão de terra pisada transborda. A terra torna-se lama, viscosa e grudenta, a tinta branca nova descasca revelando cores passadas. Centímetro por centímetro a água invade o quarto, possuindo-o, tirando o ar até sufocá-lo. Não há nada a se fazer, chorar só o preencheria mais. Do quarto vazio, nada fica no lugar, tudo torna-se lama ou água, diferente mas sempre igual.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
(in)sanidade
Via-se algo pequeno, tremulo, no canto da cama. Não emitia som algum, quase não se movia. Era preciso algum tempo para reconhecer as pernas encolhidas junto ao resto do corpo formando aquela estranha figura. Os lençóis cobriam-na até os cabelos, escondendo o vermelho, vendo-se apenas um pedaço do travesseiro amassado.
Na parede branca encontrava-se sua sanidade, já preta, zombando-lhe os olhos inchados. Ela, com as garras metálicas, alimentava-se do que restara de si, soltando gritos surdos. O que antes não se movia, agora não se aquietava, chutando roupas e cobertas, expondo pele e ossos nus.
O suor do frio escorria-lhe pelas costas, eriçando os pelos. As entranhas retorciam-se, fazendo-a urrar, mas não importava o quão vermelha fosse a mancha no assoalho de madeira, o nojo ainda não saia de seus dentes. O doce cheiro pútrido da sua pele branca impregnava o quarto, corroendo as paredes, abrindo buracos tapados pela dor.
Olhos com pupilas dilatadas e pálpebras ardendo recusavam-se a abrir, temendo a luz inexistente no ambiente. As unhas roídas fincavam no colchão da pele, arrancando cabelos e sangue rubros. No silêncio sinfônico misturavam-se soluços com risadas cortando tênues linhas antes traçadas. A sanidade, cansada da carne quente, debatia-se nas paredes não mais acolchoadas, entorpecendo a língua enrijecida.
Rastejando pela pele ela subia, nefasta, afiando os dentes. Percorria osso e músculo, possuindo-os. Chicoteava a cauda, consumiu dor e medo.
Da carne fez-se pó, e este, consumiu-se.
Na parede branca encontrava-se sua sanidade, já preta, zombando-lhe os olhos inchados. Ela, com as garras metálicas, alimentava-se do que restara de si, soltando gritos surdos. O que antes não se movia, agora não se aquietava, chutando roupas e cobertas, expondo pele e ossos nus.
O suor do frio escorria-lhe pelas costas, eriçando os pelos. As entranhas retorciam-se, fazendo-a urrar, mas não importava o quão vermelha fosse a mancha no assoalho de madeira, o nojo ainda não saia de seus dentes. O doce cheiro pútrido da sua pele branca impregnava o quarto, corroendo as paredes, abrindo buracos tapados pela dor.
Olhos com pupilas dilatadas e pálpebras ardendo recusavam-se a abrir, temendo a luz inexistente no ambiente. As unhas roídas fincavam no colchão da pele, arrancando cabelos e sangue rubros. No silêncio sinfônico misturavam-se soluços com risadas cortando tênues linhas antes traçadas. A sanidade, cansada da carne quente, debatia-se nas paredes não mais acolchoadas, entorpecendo a língua enrijecida.
Rastejando pela pele ela subia, nefasta, afiando os dentes. Percorria osso e músculo, possuindo-os. Chicoteava a cauda, consumiu dor e medo.
Da carne fez-se pó, e este, consumiu-se.
Assinar:
Comentários (Atom)