quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Depois de um tempo pairando no ar, girando em torno do quarto, as peças começam a cair no chão. Vão aos poucos, sem pressa ou muito barulho, e nós continuamos a observar. Sentamos ali, no assoalho de madeira, e juntos começamos a montar aquele quebra-cabeça. De inicio eu lá e você cá, os dois sem muito saber o que fazer, ou falar, apenas admirando carinhosamente enquanto tudo se encaixava. Nos aproximamos, trocamos o lugar; paramos, bebemos nossos copos d’água e pegamos o ar necessário, e depois voltamos, tudo ainda como havia sido deixado. Não houve um inicio propriamente dito, cada um começou e juntou o que quis, a sua própria maneira, e no meio do caminho sabíamos que nos encontraríamos.
Apenas um esbarrar de mãos foi necessário, estávamos há tanto tão absortos na tarefa de selecionar para juntar que nos esquecemos da presença um do outro; fingirmos estarmos sozinhos ali até a casualidade nos provar o contrário. Eu derrubei suas peças e você as minhas, misturou-se tudo, e como duas crianças confusas apenas nos olhamos, com um pouco de raiva talvez, mas sem muitas ações. Dali se seguiu uma palavra, e depois outra e outra até estas inundarem o quarto junto aos risos e ao novo quebra-cabeça, desta vez mais colorido. Misturamos tudo, presente, passado e futuro, criamos sinfonias e nunca paramos de montar, sem saber exatamente onde aquilo levaria, apenas aproveitando o percurso.

domingo, 26 de setembro de 2010


O olhou de longe e ascenou, estava sentado ha algum tempo sozinho na calçada daquele café, as cadeirinhas na rua com o seu tom frances. Ele sorriu e respondeu o gesto, com um ar doce. Ela se aproximou, observou como o cachecol xadrez combinava com os olhos azuis, puxou a cadeira e sentou.
"Oi."
"..... Oi."
"Tudo bem?"
"Tudo, e voce?"
"Tudo otimo. Tá há muito tempo aqui?"
"Não sei, talvez uns quarenta minutos. Q..."
"Não não, eu faço as perguntas hoje."
"...... tudo bem então."
Pegou o cigarro da bolsa e pediu ao atendente um isqueiro para acender, jogou o resto do maço na mesa, talvez em um gesto de oferecimento, mas continuou focada no menu.
"Parei de fumar."
"Oi? Ah... bom pra voce. Dizem que faz bem. Não sei, nunca tentei. Quer alguma coisa? Mais um café? O seu já deve estar frio."
"Pode ser."
Ela falava animada com o garçom, gesticulando e tagarelando alguma coisa qualquer. Era simpatica, meiga, daquele jeito que irrita as vezes.
"Pode deixar que eu pago, e não vou te incomodar por muito tempo. É que fui demitida, sabe."
"Está tudo bem? Por que voce foi demitida?"
"Sim sim, tudo otimo. Nunca gostei de lá, gente mesquinha. Não sei direito, algo a ver com contenção de despesas, blablabla. Ironicamente não demiritam a outra secretáriaincompetentepeitudaquedáprochefe, não sei porque ainda. Talvez não deveria ter negado aquele boquete quando ele pediu, mas foda-se, ja foi."
Ele apenas olhava assustado, sem saber como responder. Esquecia as vezes como era a honestidade dos inocentes, daqueles tão corrompidos que tudo se torna inverso. Convenientemente o garçom chegou com os pedidos. Aparentemente a demissão não diminuiu o ritimo como gastava.
"Voce vai comer esses tres pedaços de bolo, a torta E os pãezinhos com geléia?"
"Não não, são pra voce tambem, bobo. Não sabia do que voce gostaria mais, então pedi tudo. Parece bem gostoso. Pode pegar."
"Ah....."
"Agora estou com esse projeto de vida de virar hippie, sabe? É uma desculpa conveniente para a pobreza, e com certeza soa muito melhor que a palavra 'pobre'. Coisa horrorosa. Mas então, quão mais rapido eu gastar o meu dinheiro, mais rapido ele acaba e eu posso odiar o capitalismo e vivier dos meus artesanatos. Pena que não pode gastar com roupa, é muito consumista e tenho que treinar o desapego material."
Ele apenas ria, a achava estranhamente divertida sentada ali tagarelando sobre nada, mas sem querer deixando escapar segredos. Passaram horas ali, apenas conersando, pediram mais cafés, uma dose de vodka "para esquentar o coração" ela disse, e mais um pedaço de torta. Dividiram tudo quase irmamente, mesmo sem querer.
"Ai querido, desculpa, tenho que ir já. Preciso passar na casa dos meus pais e avisar o que aconteceu, e deve demorar bastante."
"Que pena... está tão divertido aqui com voce."
"Eu sei, podemos repetir quando quiser. E da proxima vez eu talvez te deixe fazer as perguntas."
"Seria bom. Quando voce pode?"
"Qualquer dia. Estou desempregada, lembra?"
"Amanhã."
"Eu disse qualquer dia. Se combinar certinho estraga. Gosto desses encontros casuais sem querer."
"Então tá."
Ela deixou a carteira em cima da mesa e se levantou sem dizer nada, apenas andou para longe. Ele até tentou chamar, mas não respondeu.
Dentro havia o dinheiro quase certinho da conta, como se ja soubesse quanto seria gasto, e nenhum documento nem nada que a identificasse, nunca perguntou seu nome. Apenas um papel, provavelmente um guardanapo, escrito a mão fora deixado ali.
"Pela beleza de fazer um desconhecido o seu amigo mais íntimo, nem que por algumas horas."

terça-feira, 21 de setembro de 2010

run, run away. no sense of time.


Once upon a time there was this beautiful, beautiful little girl, with short red hair and a crocked smile that everybody adored. But what people didn't know is that this girl was cursed, since before birth, because in her tiny body all the love in the world would be put in, so she just went on and on loving people, men and women, in hope of finding her prince charming.
He didn't exactly need a white horse or a shining armor, though that would be good, he just needed to love her. Not just love, that would be too simple, but to love as she did. With no limits, strings attached or announcements, just letting it grow as much as it could, and having this sweet scent of cinnamon, or vanilla.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Mamihlapinatapei


"Sabe...."
"O que?"
"...... nada."
"É, sei."
E sorriu enquanto o olhava nos olhos, sorrindo seu sorriso sincero, até que ambos voltaram a se concentrar no café que seguravam. Ela mexendo a colher e ele apenas olhando, maior parte do tempo observando o que fazia.
"E se eu te dissesse tudo?"
"Tudo o que?"
"Tudo."
"Talvez eu te amasse mais, talvez menos, mas ainda estaria aqui."
"Mentira."
"Verdade, voce sabe que é."
"E voce nunca iria embora?"
Ela apenas cantava junto a musica, com os olhos fechados, distraida. Talvez tivesse escutado a pergunta, provavelmente sim, e a respondesse assim. Terminou a sua chícara e levou as duas para a cozinha, sem deixar que seus olhos cruzassem os dele, não sabia exatamente o porque ainda. Voltou enrolada no casaco jogado no chão da sala, deve ter passado os ultimos dias ali, abandonado. Sentou no seu colo na ponta da cama e beijou seu rosto, esfregando a bochecha na barba mal feita, a mesma musica ainda tocando repetidamente.
"Por que se vestiu?" Ele perguntou passando a mão por ebaixo do casaco.
"Estava com frio."
"Eu podia te aquecer."
"Eu sei, mas resolvi dar um descanso ao seu abraço, e o casaco parecia tão sozinho la na sala."
"De voce meus abraços nunca querem descanso."
"Será?"
E o beijou nos labios mais uma vez, deixando-o tirar o casaco para recomeçarem tudo. Já perdia a noção se era dia ou era noite, se tinha fome ou se comera, quantos cigarros fumara ou se o maço continuava vazio, e de quem era antes de entrar naquele quarto.

[ Bon Iver - Woods ]

terça-feira, 17 de agosto de 2010

we're just two lost souls swimming in a fish bowl...


E sorriu mais uma vez. E passou a mão nos cabelos. E riu de novo. E beijou barba, nariz, labio e pescoço. E se fez de inteira metade. E puxou para mais perto, para completar. E riu. E beijou. E apertou os sexos, gemendo um pouco mais alto, para ver se gostava. E olhou nos olhos, mas não disse nada. Disse tudo. E escutou. E falou. Falou, falou, falou, e escutou. E trocou. E destrocou. E entrelaçou dedos, soltou, e entrelaçou de novo. Na dança dos dois que, na verdade, permaneciam parados. E abraçou mais forte, ainda para completar, e aquecer. E tremeu. Sentiu medo. E riu da piada sem graça, para não rir da engraçada. E fugiu para ser caçada. E chorou por dentro. De alegria. E continuou. E parou, só para começar de novo. E partiu. Só para voltar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

[ Fink - This is the thing ]


Ela deitou e o abraçou, a madrugada invadia o quarto com o barulho dos carros e a luz dos postes lá fora, dentro apenas o lusco-fusco. Deslizou o dedo pelas suas costas nuas, ele tremeu, talvez estivesse frio, o cobertor sempre dava uma sensação de calor sufocante.
"Achei que tivesse ido."
"A mala está feita, perto da porta. Junto aos sapatos e ao guarda-chuvas."
Ele olhou para a janela, estava bem a sua frente. A luz laranja sempre o incomodou, achava a felicidade quando a lampada queimava, mas sempre vinha alguem logo trocar. Já a quebrara algumas vezes de propósito, para conseguir dormir. Não via as gotas de chuva refletidas na luz.
"Vai levar o guarda-chuva? Está noite clara lá fora."
"Mas uma hora o tempo muda, sai o sol e entra a chuva."
"Engraçado, este já não aparece aqui faz tempo."
Ela o abraçou. Choravam em segredo. Ele na verdade, ela nunca conseguiu esconder as emoções, ou os soluços. Tirou a blusa, sentiu o encostar das peles e o roçar dos moletons, identificou cada sabor e nota do momento. As lágrimas seriam as ultimas gotas de limão necessárias.
"Por que voce vai?"
"Porque preciso."
"Mentira, vai porque quer."
"Mentira, é pelos dois."
Ele virou e a olhou nos olhos, sentiu-se afogar por tudo ali. Havia amor em dor, em conflito, em completude. Havia ela. Havia ele. Não havia nada.
"Fica."
"Não."
"Por favor."
"Não posso."
"Então vai. Vai e não volta, fica aonde quer que seja. Não pense em mim, não traga o vento com o teu cheiro. Leve todos os livros, senão os queimarei. Nunca gostei de nenhum deles, sabia? Nunca gostei de nada na verdade...... só de voce."
"Sabe.... voce nunca soube mentir. Ou ser cruel."
Beijou-o na testa, vestiu a camisa amarrotada, pegou a mala na porta, o guarda-chuvas e saiu. Errou por horas; no corredor, na calçada, no hall de novo, no elevador, até encontrar o carro na antiga vaga na garagem. Abriu o porta-luvas e deixou a carta ali, sabia que demoraria a lê-la, se é que o faria, mas estava lá. Em palavras que não a pertenciam, mas muito melhores. Na verdade, não importava mais. Trancou o carro, deixou as chaves na portaria, e saiu para nunca mais voltar. Não olhou para tras sequer uma vez.

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente"

quinta-feira, 17 de junho de 2010

and if our hearts all disappear...


E assim ela sorriu, como se aquecendo os primeiros raios de sol após o inverno. Era algo tímido, quase imperceptível, incapaz de derreter seu gelo, mas umedeceu seus corações. Ainda enroscada em seus braços ela ficou, sorrindo calada, com as lagrimas a correr pelo rosto. Estas tão tuas quanto minhas. Imóveis os dois permaneceram, com os olhos fechados, ou abertos, confundiam a escuridão do quarto com a própria. Tremeram pela ferida aberta, por ambos os destroços a se misturarem, formando do caos a beleza. Respirou apenas uma vez, puxando todo ar a volta, com medo de sufocar o momento.
“E agora?”
“Eu não sei...”
“Claro que sabe. É a sua bagunça.”
“Mentira.”
É tão tua quanto minha.
E cessaram as palavras, conseguiam sentir no ar a volta o seu peso úmido e morno, junto ao cheiro de velho após remexido. Era nisso que se tornaram, o baú escondido no fundo do armário que um dia cai liberando seu conteúdo. Após arrombada a fechadura, nem a esperança neste sobrou. Ela o abraçou mais forte, movida pelo medo de deixa-lo escapar, e esfregou seus narizes enquanto murmurava uma antiga musica de ninar, declarava seu amor no quase-silencio estático.
“E agora?”
“Eu não sei....”
“A bagunça foi minha....”
Tão tua quanto minha.
Entrelaçaram os dedos por debaixo do cobertos, esqueceram os sexos descobertos e as naturezas aflitas. Ela não mais sorria, beijava suas bochechas. Ele não mais chorava, olhava seus olhos sonhando afundar. Tremeram mais uma vez, ela urrou, ele a abraçou. Intercalavam a paz e o caos.
“E agora?”
“Não sei....”
“Agora somos um... eu tua e tu meu. As metades complementares e todo o resto. E não sei o que fazer...”
“Não há nada a ser feito.”
“Claro que há.”
“Não, não há. Com o menor movimento tudo irá embora, ou comigo ou contigo, então o que temos a fazer é permanecer parados.”
E assim permaneceram, entre o adormecer e o despertar. Esperaram, pelo maior tempo possível, como a pétala que, pacientemente, espera sua hora de cair.