segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

It was right even though it felt wrong


Tento pensar nas mais belas formas de te expressar como sinto, mas a verdade é que duas palavras bastariam. Cinco letras, que arrumadas de forma tão simples, dizem tanto. Mas não ouso dizer isso. Não posso escrever, nem muito menos falar. Evito pensar para que não cresça, como a faísca que inicia o incêndio.
Passo a noite pensando em como chegar até você, achar um caminho pelas suas tortuosas curvas. Como labirinto me perco e fico presa em meio aos seus sentimentos, ocupando esse lugar que nenhum de nós sabe exatamente onde fica.

Pode o certo advir do errado? Como classificar a felicidade como erro? E o amor? Nesses momento deixo a fagulha escapar e torço pelo corpo de salvamento que, quem sabe, conseguirá me resgatar.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

[ Tô entre tirar sua roupa e tirar minha vida ]




Desde o início soube de todas as dificuldades que nos traríamos. Me convenci de ser um desafio, mas apenas para esconder o medo do impossível. Os seus problemas esbarram nos meus, que desaguam em nós. Minha vontade atravessa a sua, que como o fio da navalha sepulta a nós dois. Mas a falta que sinto de você é física, é a ausência dentro do abraço, o lugar vazio que procuro enquanto acordo. É o espaço que em mim separei para você, na esperança de que no meu coração fizesse morada. Agora, cá estou eu encharcada de amor e lagrimas.

Minha tristeza tem nome. Ela tem nome, cpf, endereço e os sonhos de um menino. A minha tristeza ri enquanto compartilha comigo a sua ausência de plano para nós, fingindo não escutar meu coração que cai e parte. Minha tristeza marca minha pele com os dentes, sem saber que é um pedaço de mim quem ela leva. Minha tristeza não vê enquanto as lagrimas correm, mas afaga com um beijo a minha saudade. Minha tristeza cresceu em mim, como um jardim que começa com as raízes, até eu fazer queimada em todos os campos. Das suas cinzas eu construirei a minha alegria.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Apenas te peço que aceite o meu estranho amor



Loucura é essa vontade que eu tenho de você todo dia. É querer te memorizar a cada vez que nos tocamos, para quem sabe um dia conseguir te ler. É procurar nas roupas o teu cheiro na tentativa de amenizar a saudade.
Loucura é querer respostas para as perguntas que nunca fiz.
Porque de todos os meus erros, você foi o mais gostoso. Foram nos seus braços que me lancei sem paraquedas na esperança de nunca aterrissar. 



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Eu não me lembro mais quem me deixou assim

Eu lembro de cada pedaço seu junto aos meus. Eu lembro da tua voz falando palavras doces no meu ouvido, e dos beijos que eu te dava enquanto dormia. Eu lembro dos risos, dos amores. Lembro também das lágrimas. Eu lembro de você. De nós.
Você lembra de mim?

domingo, 5 de junho de 2016

“I’m gonna love you inside out”


                Meus dias costumam ser preenchidos pelas mais tenebrosas histórias contadas pelos pacientes. Violência. Abuso. Negligência. Pobreza. A cada consulta, uma nova desgraça. Um pequeno pedaço de mim que morre ao ser lembrado da crueldade do mundo.
                Mas às vezes, muito raro, o amor vence tudo isso. Contra todas as probabilidades, desgraças e desavenças do mundo, o amor vem me lembrar de que ainda há beleza no universo.
                Dona Violeta entra na sala de cabeça baixa e senta na cadeira destinada aos pacientes. Veste uma bermuda jeans e uma blusa rosa, suas sandálias têm flores bordadas. Somos eu e mais diversos alunos para iniciar a consulta, é sua primeira vez em um consultório psiquiátrico. Começamos com a pergunta de praxe: o que trouxe a senhora aqui hoje?
                Ela começa a nos contar, com seu sotaque nordestino, que há seis anos perdeu seu filho e desde então não dorme direito. No início conseguia contornar, muito mal, com medicamentos fitoterápicos além de outras coisas naturais como chá de camomila. Mas há dois anos, quando seus sintomas pioraram, procurou seu médico que lhe receitou Diazepam 2 mg todo dia para dormir. Atualmente só adormece quando toma pelo menos meio, e as vezes um inteiro, do remédio.
                Pedimos então para que ela nos conte sobre a morte do filho. Ela diz que teve três filhos, dois gêmeos e uma menina. O pai a abandou há muitos anos e ela veio para o Rio junto com eles, trabalhar para dar a todos uma vida melhor. Sempre foram uma família unida. Quando fez 18 anos Miguel, um dos gêmeos, decidiu sair de casa para viver sozinho. “Vocês não têm que se meter na minha vida! ” Ela repete diversas vezes como sendo a justificativa dele. Foi morar na Lapa junto a uma cafetina. Começou então um processo de modificação do seu corpo: raspou a barba e pelos do abdômen, injetou silicone industrial nas pernas e bunda, nos peitos colocou silicone com um cirurgião. Ela nos conta isso com calma, sem alterar seu tom de voz.
                Incrédulos, perguntamos se isso foi difícil para ela. Ela nos responde que fácil não foi, mas era seu filho e ela o amava do jeito que era. Seu atual marido, padrasto dos meninos, teve maior dificuldade de aceitação. Ela diz que conversou com ele, afinal era seu filho e se fosse para escolher era obvio quem preferiria. No final, todos se acertaram, do jeito que eram.
Em uma das visitas Carlos, o outro gêmeo, sinalizou para a mãe o inchaço em uma das pernas do irmão. Ela, preocupada, ao tocar na perna de Miguel percebeu que estava fervendo de quente, além de muito vermelha e dolorida. Começou então uma militância pela saúde do filho. Alertou diversas vezes sobre a colocação de silicone industrial no corpo, pratica ilegal, e que ele deveria ir ao médico avaliar aquilo. Foram meses de convencimento até conseguir leva-lo a um hospital. Lá o avaliaram e marcaram a retirada cirúrgica do silicone na perna inflamada.
Nesse meio tempo ela o convenceu a retornar para casa, não para seu controle, mas para auxiliá-lo com sua saúde. Foi a diversas consultas medicas com ele, sempre que podia nas folgas do trabalho. No dia da internação para a retirada do silicone industrial, ela estava trabalhando então não pode acompanhá-lo. Ele não foi. Em vez disso voltou para a casa da cafetina na Lapa, ela nos conta com voz de tristeza. Lá votou a se prostituir e a colocar mais silicone nas pernas, “se sentia mais bonito assim”.
Meses se passaram e a saúde Miguel, que agora se chamava Michaela, deteriorava. Pegou um resfriado leve, mas nunca se curou. Tossia todos os dias, constantemente, sua voz agora rouca pela grande quantidade de secreção. Já não visitava mais a mãe alegando falta de tempo e dinheiro para a passagem. Com saudades do filho, Dona Violeta se encheu de coragem e foi visita-lo na casa da cafetina na Lapa. Chegando lá, quase não reconheceu seu próprio filho. Estava magro, com a pele acinzentada, mal conseguia falar pela falta de ar. Sequer se levantou para cumprimentar a mãe, pois não tinha forças.
Desesperada, ignorou as negações do filho e o colocou em um taxi com destino ao hospital mais próximo. Lá foi prontamente internado, estava com um quadro grave de tuberculose pulmonar. Por medidas de segurança não deixaram Dona Violeta permanecer muito tempo próxima ao filho, por mais que pedisse e implorasse a todos os funcionários do hospital. Três dias depois quando foi visita-lo, recebeu a notícia de que havia falecido durante a madrugada.
Ela nos conta que constantemente revê em sua mente a cena do filho magro, internado, com a máscara de oxigênio no rosto e ainda assim dificuldade para respirar. Só em nos contar Dona Violeta treme e diz sentir o coração doer, junto com um grande aperto na garganta. O mesmo que senti durante toda sua história.
Perguntamos então sobre outras coisas de sua vida, o trabalho, planos para o futuro e como está a família depois desse evento. Ela diz que se voltou a estudar para completar o ensino médio e ano que vem pretende cursar enfermagem. “Gosto muito de cuidar das pessoas. Trabalho na casa de um casal de idosos e me ajuda muito a ocupar a cabeça.” Diz que evita ao máximo ficar sozinha, pois senão lembra do filho. Conta também ter muito medo de perder o outro gêmeo, que agora está com pedra no rim. “Ele ficou muito mal depois que o irmão morreu, toma quatro remédios para depressão”. Questiono se ele faz terapia, afirmando que um tratamento não funciona sem o outro, ela diz que foi a uma sessão e nunca mais voltou.
A essa altura nosso professor, o psiquiatra, já havia entrado na sala e esperava acabarmos de colher os dados para repassá-los a ele. Contamos a história de forma resumida, relatando a ele o sofrimento de Dona Violeta. Ele então a questiona sobre seu apetite, e se sente culpa pela morte do filho. Ela afirma que sim, pois pensa que talvez de alguma forma poderia ter mudado o seu destino. Ele discute com ela sua medicação, a necessidade de mirarem a suspensão do Diazepam pela forte dependência associada ao seu uso, e adiciona Escitalopram para tratar de forma adequada o seu quadro.
Termina a consulta com uma conversa com Dona Violeta, sobre sua culpa. Infelizmente não podemos controlar as ações de nossos filhos após adultos, apenas aconselhá-los a fazer o que consideramos melhor. E isso, ela havia feito, da melhor forma possível. Ela concorda. Ao sair do consultório cumprimenta a todos nós de forma carinhosa, agradecendo pela atenção. Após sua partida discutimos seu provável diagnóstico, Transtorno do Estresse Pós Traumático, elogiamos sua força como mãe e partimos para o próximo paciente.
Nesse momento saio da sala para ir ao banheiro, encontrando Dona Violeta sentada na cantina bebendo uma água. Questiono se ela está melhor após ter partilhado sua história conosco, ela afirma que sim com um sorriso no rosto e me convida para sentar ao lado dela para conversar rapidamente. Puxo uma cadeira e me ponho a escutar. Ela conta que seu outro filho, Carlos, é HIV positivo há alguns anos. Diz ter ficado sem graça de falar sobre isso na frente de tantos alunos, por mais que tenha gostado de todos nós.
Carlos, na verdade, fora junto com Miguel quando ele saiu de casa. Após a morte do irmão ela, vendo como seu filho havia ficado deprimido com a perda, o convenceu a voltar e morar em um pequeno quarto que havia no andar de cima de sua casa. “Assim ele tem a privacidade dele, mas continua próximo a mim”. Ela diz que o filho toma muitos remédios, somando o coquetel e os medicamentos para depressão, e se sentiu muito mal no início do tratamento. Eu afirmo a ela que é assim mesmo, são remédios muito pesados, mas que o ajudarão a ter uma vida melhor e mais longa.
Ela conta que ele a pede para chamá-lo de Bia, e não mais seu nome de batismo. Afirma que o chama de Bianca pois acha mais bonito. Questiono se ele tem o hábito se usar roupas femininas, ela diz que sim. Saio então do meu lugar de estudante de medicina, e como humana, começo a elogiá-la. Pelo seu grande amor e aceitação dos filhos, pela sua garra como mãe. Pelo ser incrível que senta na minha frente, dotada de uma sensibilidade e inteligência anos luz de seu tempo e idade. Ela rí sem graça e me responde que são seus filhos, que outra opção tem senão amá-los?
Sua irmã constantemente fala que é coisa do demônio chamar homem com nome de mulher, e permitir esse nível de perversão na sua casa. Eu digo que não sou religiosa, mas pelo pouco que conheço Jesus nos ensinou a amar uns aos outros, sem restrições de grupo. Ela concorda e que pecado é ter filho que mata, rouba, estupra. “Ele não faz mal a ninguém, doutora. Vai da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Não me dá nenhum problema. O que custa chamar ele de Bianca? Julgamento quem tem que fazer é Deus, eu só posso amar o meu filho e aceitar ele do jeito que ele é.”
Com lágrimas nos olhos eu concordo com ela, dizendo que está coberta de razão. Convido a ambos para virem a uma roda de conversa comunitária quando puderem, pois seria bom ter Bianca se tratando junto a mãe. Me despeço com o coração aquecido, dizendo que preciso voltar para as consultas. Ela me agradece pela atenção e diz que tentará trazer seu filho.


Passo o resto do dia com a certeza de que mundo precisa de mais Violetas. Para colorir todo esse cinza que embaça as nossas vistas e nos faz esquecer algo tão fundamental: amar uns aos outros do jeito que são. Sem restrições.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

I ain't thinking about you

Em tempo de caça às bruxas sou eu quem acende a fogueira. Começo pelas minhas cartas, cujas palavras profanadas já não nos cabem mais. Sigo pelas suas, rasgadas e manchadas pelas minhas lagrimas. Termino com nossas promessas, distorcidas e derretidas. A fuligem sobe aos céus, carregando tudo o que fomos. Agora, não há mais nada lá. 

domingo, 1 de maio de 2016


Ele me olha e eu me sinto nua. Vesti meu casaco mais pesado e seus olhos verdes o retiram em apenas um relance. Suas mãos abrem o laço do vestido e são minhas verdades que caem no chão. As cicatrizes expostas sangram enquanto meus olhos secos focam o infinito. Beijo seu rosto em uma prece, repetindo o nosso amor.


Prayin' to catch you whispering
I'm prayin' you catch me listening
I'm prayin' to catch you whispering
I'm prayin' you catch me

quarta-feira, 6 de abril de 2016

                               T. e F. entram no consultório de cabeça baixa. T. tem 30 anos e F. 15. Ambas com a pele cor de avelã e os cabelos negros e longos cobrindo o rosto. Poderiam ser irmãs, mas são mãe e filha. Sentam uma ao lado da outra na minha frente, T. agora olha para mim como quem teve o coração partido, F. continua encolhida e com a cabeça baixa, mal ocupa espaço na cadeira.
Pergunto como chegaram até mim e a terapia de família, T. diz que foi encaminhada pelo juiz da vara de família e me entrega uma folha com o resumo do seu caso. Leio e evito olhar para cima, controlando minha respiração e minhas emoções. Essa vai ser uma consulta longa. Devolvo o papel e peço para me contar desde o inicio.
A partir desse momento as historias de mãe e filha se entrelaçam ao ponto de se confundirem. Além da obvia participação de uma na vida da outra, há quase a repetição de um padrão. Como se o presente fosse uma mera reprodução do passado. Contarei em ordem cronológica apenas para facilitar a compreensão.
T. conta de uma infância humilde em uma pequena cidade próxima a Manaus. Tem muitos irmãos, homens e mulheres, os quais foram todos criados pela mãe. O pai, alcoólatra, ela comenta que saiu de casa quando ainda era nova. Não sabe dizer nada além disso sobre ele.
Diz que desde cedo ajudava com as tarefas da casa, e mesmo não sendo a mais velha constantemente ficava responsável pelos irmãos quando a mãe se ausentava. “Não sei porque, dotôra, acho que eu era a mais responsável, mesmo sendo nova. ”. Conta com pesar sobre as surras dadas pela mãe, sempre piores nas meninas que nos meninos, e ainda mais severas com ela.
Aos 10 anos decidiu sair de casa. Seu sonho era trabalhar em casa de família; terias as mesmas tarefas com as quais já estava habituada, mas agora com a chance de independência e longe das surras da mãe. Pegou um ônibus e foi até onde conseguiu, mas logo a encontraram. Diz que nunca apanhou tanto na sua vida quanto naquele dia.
Passados alguns meses dois homens batem à sua porta, dizendo que estavam lá para levar ela e a irmã para uma casa de família. Ela sentiu o coração palpitar e logo estava na porta com a mala pronta. Era a sua chance de sair de casa e realizar um sonho. A irmã chorou e esperneou até desistirem de leva-la. Diz lembrar de fazer uma viagem longa de carro, e que os homens se recusavam a responder quaisquer das suas perguntas de criança ansiosa. Apenas a mandavam ficar quieta.
Quando finalmente chegaram ao destino, sua casa de família havia se transformado em algo bem diferente. Eram diversos quartos, pequenos, enfileirados um ao lado do outro e unidos por um corredor. As meninas que trabalhavam lá eram um pouco mais velhas, todas com pouca roupa no corpo. “Elas vão te explicar como funciona, amanhã você começa.”. T. ainda tinha 10 anos.
Pela noite as outras meninas, assustadas com a idade da criança entre elas, a ajudaram a fugir. Passou algumas semanas dormindo na rua e contando com a caridade de estranhos para sobreviver. Um dia ela diz ter pedido um copo d’água a um senhor, que então a ofereceu um emprego e lugar para morar. Era um advogado, pai de duas crianças pequenas e com a necessidade de alguém para ajudar sua esposa nas tarefas caseiras. Ela conta que nunca foi tão feliz.
Após aproximadamente 3 meses trabalhando nessa casa, seu patrão diz que vai leva-la para sua mãe. Tinha escutado no rádio o pedido de uma mulher procurando por sua filha, perdida, e pela descrição com certeza era T. Ela pediu, implorou, mas ele por medo das implicações legais de ter uma menina desaparecida menor de idade trabalhando em sua casa, a levou mesmo assim. Chorou todo o caminho de volta.
O retorno para casa foi pior que da primeira vez. A mãe, cansada da rebeldia da pré-adolescente, a abarrotava de tarefas e afazeres. Seus irmãos agora não faziam mais quase nada, apenas ela cuidava das coisas. As surras também haviam piorado. Tentou procurar o pai, mas, sem sucesso, decidiu mais uma vez fugir de casa. Mesmo que morasse na rua, lá ela não ficava mais.
Então, aos 11 anos, ela se tornou mais uma criança na rua. Conta com profunda vergonha das coisas que fez para tentar sobreviver; diz que até teve que se prostituir e me pede desculpas pelas coisas que está contando. Respondo que não há nada de vergonhoso em nisso, pois ela fez o que precisava para sobreviver. Logo, nada de me pedir desculpas. Volto minha atenção rapidamente a F. e pergunto se ela sabia dessas coisas, ela apenas balança a cabeça negativamente. Ainda não conheço o som da sua voz.
Aos 12 anos ela me diz ter descoberto o amor. Era outro menino morador de rua, um pouco mais velho. “Com ele eu me descobri mulher, me entreguei inteira” ela diz enterrando o rosto entre as mãos. O resultado do amor da adolescência nesse caso não foge muito do esperado. T. engravidou e o então amor de sua vida logo desapareceu.
Sem opções, gravida aos 13 anos, ela bate na porta da mãe pedindo ajuda. Essa lhe responde dizendo que era isso mesmo que ela merecia por ter fugido de casa para virar vagabunda na rua. Após longos pedidos e horas implorando, a mãe a aceita de volta. Mas com a condição de pagar pelo próprio sustento.
A partir desse momento, e durante todo resto de sua gravidez, sua mãe a aliciou. Um cliente após o outro, ela pagou com o corpo o sustento para a própria mãe. Seu bebe nasceu prematuro e, infelizmente, não sobreviveu. T. nunca mais voltou para casa depois da alta no hospital.
Com então 14 anos ela se viu na mesma situação que parecia ser seu destino: moradora de rua, fazendo o possível para sobreviver. Após alguns meses, em um abrigo, ela conhece uma mulher e seu filho, um menino de 12 anos. Ouvindo a história de T. essa senhora se comove e faz uma proposta: casar-se com seu filho para assim tornarem-se uma família e tentarem sair daquela situação juntos.
T. diz ter achado a senhora louca, como que ela com 14 anos iria se casar com o menino de 12? Mas, levada pela falta de melhores opções, ela aceitou. Assim se passaram 15 anos, e após 3 filhos, dois meninos e a menina mais velha, ela está sentada no meu consultório, pronta para contar a história de sua filha.
Nenhuma das duas sabe me precisar uma data de início, mas ambas concordam com a idade: começou quando F. tinha 13 anos. T. se recorda de uma viagem que fez, para visitar os parentes em Manaus, na qual pretendia levar a filha junto. O pai então, preocupado com seus estudos, disse que seria melhor a menina ficar em casa com ele e assim não perder aulas na escola. Ambas, seguindo a lógica racional, concordaram. Era seu pai, além de assim F. poder ajudar a cuidar dos irmãos. T. lembra com lágrimas correndo pelo rosto de perceber a filha diferente ao voltar.
Pergunto se durante esses anos T. suspeitou de algo, ela me responde não com toda culpa que essa pequena palavra pode carregar. Diz que suas vizinhas a alertavam, mas nunca sobre algo concreto. Falavam do ciúme excessivo do pai com a filha, “algo meio homem e mulher”, e sobre as roupas provocantes com as quais ele constantemente a presenteava.
Porém, toda vez que qualquer falatório se iniciava, ou quando a menina conseguia fazer amigos, eles se mudavam. Sempre haviam razões e explicações, normalmente relacionadas a emprego, então T. aceitava sem muito questionar. Diz que para não dar atenção aos boatos, se concentrou no trabalho. Aumentou sua renda, mas diminuiu seu tempo em casa. Como se fugisse de algo lá.
Enquanto isso, F. se tornava uma menina reclusa. Além das constantes proibições do pai em relação as suas amigas, ou qualquer um que se aproximasse, ela cada vez menos falava. Começou a ir mal na escola, repetiu então duas séries. Pergunto porque ia mal nas matérias naquela época, ela me responde que não conseguia se concentrar. Digo que realmente deveria ser muito difícil se concentrar com tudo que acontecia. Ela consente com a cabeça.
T. diz que F. tentou procurar ajuda algumas vezes, mas que infelizmente ela não entendia. Nos dias de folga do pai, às segundas como a própria filha enfatiza, constantemente pedia para ir ao trabalho junto à mãe. Sem saber o porquê daquilo, e dizendo que ela deveria ficar em casa para ajudar o pai com o almoço, sua mãe constantemente negava o pedido. Pergunto se era nesses dias que acontecia, quando eles estavam sozinhos em casa sem a mãe ou os irmãos, ela consente com a cabeça enquanto chora calada.

Esse ciclo se repetiu durante 2 anos. As mudanças, a reclusão da filha, a negação da mãe, o abuso sexual feito pelo pai. Até que em janeiro desse ano, a menina finalmente rompeu o silêncio. Não com a mãe, mas com uma amiga e confidente de ambas. A partir da abertura dessa caixa de pandora, tudo na vida das duas mudou. E o fato de que sou capaz de reproduzir essa história é talvez uma das maiores provas disso.

terça-feira, 1 de março de 2016

you forgot how we fell in love


Você entrou na minha vida como uma tempestade. Haviam trovões, risadas, rajadas e chamegos. Os rios encheram e transbordaram amor, deixando-me encharcada. Em meio a água tudo florescia, meus campos se encheram de cor mesmo com o céu cinzento.
Mas como toda chuva de verão, você partiu tão inesperadamente quanto chegou. O sol brilha e o calor secou as minhas plantas, não há uma brisa sequer no ar. As nuvens passam esparsas, altas, não deixam escapar uma gota. Do meu jardim fazer-se-á deserto.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

                O coração vazio me pesa no peito como chumbo.
                As palavras de tão negadas, secaram.
                E não há mais droga no mundo que me traga de volta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

#meuamigosecreto

#meuamigosecreto saiu com a ex por 6 meses antes de decidir que estes eram namorados, mesmo que o fossem em todos os sentidos. No final desse período ela viajou para fazer sua última prova de vestibular, e após isso saiu com os amigos e usou substâncias psicoativas para comemorar. Essa foi a gota d’agua para ele, pois não podia levá-la a sério com atitudes assim e terminou o relacionamento (que de certa forma nunca havia começado) com essa justificativa em uma conversa de msn.
Passados alguns dias, muito arrependido, ele viajou para encontra-la, pediu desculpas e os oficializou como um casal de namorados. Na mesma noite brigaram sobre como praticariam sexo, já que ela não queria fazer o que ele pedia, mas ele achou que com insistência conseguiria. E, ao longo dos dois anos de relacionamento e muitas brigas sobre o assunto, conseguiu. Até hoje esse é um assunto delicado para ela.
Com o tempo o relacionamento, que de iniciou como uma relação entre iguais, se tornou um molde da personalidade dela. Pois ela deveria agir, se vestir e portar de uma determinada forma para merecer o amor do namorado. Ama-la como era, claramente, não ia rolar. Não podia fazer tatuagens (mesmo querendo fazer uma há anos), pois ele dizia não querer a linda pele dela manchada. Chegou um dia com um piercing novo na orelha e a resposta foi “por que você não me avisou antes?”. Não podia usar as substâncias que queria porque gente séria não usa esse tipo de coisa, mesmo que os amigos que dividiam apartamento com ele usassem diariamente. Afinal, os amigos não eram a namorada dele.
A frequência dela em eventos sociais da recém iniciada faculdade sempre eram um assunto polêmico. Ele dizia que não a proibiria de ir, pois já tinha sofrido isso em relacionamentos anteriores e sabia o quanto era ruim. Porém, toda vez que a namorada comparecia em um começava uma enxurrada infinita de mensagens de textos, com assuntos complexos e inadiáveis. Caso demorasse a responder brigavam pois se ela não dava atenção a ele claramente estava fazendo algo de errado. Se chegasse atrasada após a festa na casa dele, seria outra discussão. O que estava fazendo? Não dava pra voltar antes? Alguém chegou em você? Tem certeza? (que diferença faz?)
Uma vez, enquanto brigavam porque ele vasculhou o facebook dela e encontrou uma conversa com um menino que não o agradou muito, ele levantou a mão. E ela teve certeza que ia apanhar naquele momento, ali, naquele apartamento vazio a 300 m de uma delegacia. Por sorte ele desistiu do ato e abaixou a mão para o lado enquanto pedia desculpas, dizendo que nunca faria isso com ela. Depois riu e zombou quando ela respondeu que se batesse, ela iria na delegacia na mesma hora. Ele já havia agredido outras exs-namoradas.
O termino foi uma das situações mais traumáticas da vida dessa menina. Ela se deprimiu, pensou em se matar. Ela o amava com todo o coração, mesmo com os constantes abusos verbais e morais. Ele a havia convencido que, sem ele, ela estaria sozinha no mundo. Afinal, quem iria amar uma gordinha sem graça como ela e com tantos problemas na cabeça? Alguns dias depois de terminarem ela recebeu uma mensagem de um facebook anônimo sobre como ele ria dela com os amigos dele, porque ela tinha engordado, sobre como apenas a namorou pois era mais nova e fácil de manipular, além de amável e que o tratava bem, e sobre a ida de outra menina (que já havia sido pivô de outras brigas durante o relacionamento) a casa dele no mesmo dia em que terminaram, mesmo que na época ele dissesse ainda gostar dela e que voltariam em algum tempo. Até hoje não sabe a veracidade da mensagem, mas sinceramente já não duvida muito.
Ele permaneceria na vida dela ainda por muito tempo, mesmo após iniciado um novo namoro com sua atual esposa, pois sabia que ela ainda tinha sentimentos por ele. Um dia em uma conversa bêbado pelo computador ele disse “o ruim de estar bêbado e com insônia é que não da pra bater uma e dormir” e ela se tocou que se ele não respeitava a então namorada, com certeza nunca a havia respeitado.
Pois é amigo, o único problema que eu tive na cabeça foi permanecer presa a você por tanto tempo.

(25/11/2015)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

05/02/2016

O homem que cuidava do tempo

Inexoravelmente cumpriu-se o ciclo da vida. Nascemos, crescemos e viramos pó de estrelas. Sempre é difícil assimilar a terceira parte e estranhamente ficamos tristes.

Rosalvo desde cedo se interessou pelo segredo do passar do tempo e resolveu ser mais um guardião dele. Com carinho, introspeção e enorme paciência, desmontava, reparava e dava corda em seus inúmeros relógios, sempre sob os olhares carinhosos e compreensivos de Ruth, de Regina, Rubens, Luciana, Gabriel, Eduardo, Flávio e Júlia, que imaginavam quantos giros dos ponteiros ainda estavam por vir.

Mas além de cuidar do tempo, também cuidava dos seus, mesmo que por vezes houvesse discordâncias sobre o tempo certo de cada um realizar os seus projetos, mas o segredo da vida não está no acerto, mas no afeto.

Desta forma, melhor é acertar as molas e engrenagens dos relógios e deixar que a engrenagem própria da vida faça os seus acertos na vida de quem se ama.

No seu jardim “pitava “eventualmente uma cigarrilha e curtia uma cuba-livre, resquício dos seus tempos de caserna.

Hoje neste dia lindo, de céu de BRIGADEIRO, lógico, resolveu conhecer outros lugares onde o tempo não tem mais importância.

Sentiremos saudades, mas nos lembraremos sempre com alegria da sua presença. 


- João Siqueira

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A gente sobrevivia de sexo, suor e cigarros.

                Eu lembro da primeira vez que te vi. Era uma rua pequena, cheia de gente, iluminada e enfeitada parecendo carnaval. Eu estava cansada de ter ido tão longe só para te encontrar, e mesmo sem te conhecer te reconheci assim que cheguei. Lembro do nosso primeiro beijo, quase roubado. Lembro da nossa primeira vez. Para mim, na verdade, foram várias primeiras vezes. E eu lembro de cada uma delas. Lembro de dividir um pedaço de bolo com você na chuva e de ter certeza de que era você quem havia ganho um pedaço meu. Lembro de na mesma noite estar cansada e querendo ir para casa, mas sem saber você me pediu para ficar. Lembro de já pela manhã nenhum dos dois quererem ir embora, e pensar de que talvez eu também ganhara um pedaço seu.
                Eu lembro de conhecer a sua casa e de chegar lá assustada. Lembro que te demorou quase uma noite inteira para descobrir o que acontecia e me acalmar. Lembro de depois te pedir para ficar mais, e você aceitar com um sorriso. Lembro do primeiro ciúme que tive de você, e de como te divertiu perceber isso na manhã seguinte. Lembro de ter a impressão de sempre tocar a mesma música no seu carro, mas que você tanto gostava. Uma vez me perguntou se já estava de saco cheio, respondi sincera que não.
                Eu lembro de te trazer para conhecer a minha casa, mesmo tendo aberto a porta embriagada. Lembro da flor que me trouxe. E de todas as outras. Guardo as pétalas escondidas em livros. Lembro de irmos à praia uma única vez juntos, e de como o seu cabelo ficava bonito brilhando no sol. Lembro de adormecer tantas vezes nos seus braços, tão cansada, e de acordar com a certeza de que a felicidade era minha. E tua. Nossa.
Eu também lembro da primeira vez que você partiu o meu coração. De como naquele instante todas as cores que você colocou no meu mundo se tornaram tons de cinza. Eu lembro de querer pedir o meu pedaço de volta, mas saber que não é assim que acontece. Lembro de nos ver mudados depois disso. Não haveriam mais flores, nem bolos. Não havia mais nós. Havia você e havia eu, despedaçada.
Lembro de abrir a porta uma última vez para você, e te encontrar nervoso do outro lado do corredor. Lembro de nos olharmos por algum tempo, nenhum dos dois sabendo como proceder. Lembro de passarmos o resto da noite juntos, como éramos. Lembro de você parar para apenas me olhar, e de não entender o que aquilo significava. Lembro de me permitir ter esperanças como poucas vezes o fiz. Lembro de você me pedindo para ligar quando retornasse de viagem, repetidas vezes. Lembro de não querer te deixar ir embora, por medo de quebrar o encanto, mas de saber que precisaria.

E eu lembro de ter de partir o meu coração pela segunda vez. Para que todas as outras lembranças permanecessem intactas, eu parti o pouco de mim que restara.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


Você foi a janela para qual a minha alma se abriu. 
Chovia torrencialmente lá fora, as cortinas balançavam com o vento e eu me recusei a fechar. Havia água para todos os lados, meus pés estavam encharcados, enquanto meu coração cantava o fim da seca.
Pois o amor, querido, é inundação.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015


"The saddest end to a relationship is one where you have to break up with somebody when you’re still in love with them. It sounds bizarre but it happens, because the truth is, as powerful and as thrilling and as wonderful as it may be, love isn’t always enough and to be in love doesn’t always mean you’re happy. You can continue to love someone even after they’ve hurt you, but you know deep inside yourself that it won’t ever be the same again, so at some point, you have to let them go. When is the right time? You never know. That’s the sad part, too. You just have to walk to the edge of it all and jump, learning to grow back the wings you once had on the way down." - the-taintedtruth

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Dias se transformam em noites enquanto meu tempo permanece suspenso. A roda da fortuna quebrou e apenas o limbo me resta. Este que transformo em inferno para queimar. Flerto com meus demônios e eles me repetem ao pé do ouvido: Todo carnaval tem seu fim e de você nem as cinzas vão sobrar.

domingo, 25 de outubro de 2015

It's no secret that the both of us are running out of time


                O tempo me escapa como areia por entre os dedos, levando nossos pequenos pedaços. Sinto em cada grão suas risadas e meus chamegos, desconexos na imensidão dessa praia. As ondas vêm com a força de uma ressaca, lavando as lagrimas do meu rosto cansado de sorrir. Lembranças perdidas na imensidão do mar, afogadas pelas palavras nunca ditas. O canto da sereia surge enquanto o sol raia, e não há nada mais a se esperar.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

0.1

                E em um piscar de olhos, você estava lá. Teu cheiro, teu jeito, tua voz. Suas palavras preenchiam os meus dias, enquanto eu insistia em manter a porta fechada. Aqui você não entra, gritei comigo, postergando o inevitável.
Eu preocupava com as portas, passei a tranca em todas, e você pulou os muros. Um por um, fazendo da minha pista de obstáculos uma trilha a ser descoberta. Entrou nos quartos, nas salas, tirou o pano dos moveis, abriu as janelas. Olhei as rachaduras, percebi o quebrado, corri para esconder os cacos. Em vão.

Descascou todos. Um por um, meus pedaços caíam por trás dos sorrisos e você sempre a olhar. Prestou atenção em cada, até ver o todo. A luz entrava pela janela e não havia onde esconder. As portas estavam abertas e as chaves agora não mais me pertenciam. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

                Aquelas paredes já haviam visto de tudo, mas nada as prepararia para o que estava por vir.
                Motel barato, perdido entre a Lapa e a Glória. “Lugar justo” alguns dizem. Paredes recobertas de veludo, para guardarem seus segredos. Gravam tudo, riem e discutem. O bizarro já virou rotina. Entra um casal jovem, descolados e despretensiosos. Daqueles que confundem luxuria por amor e safadeza com carinho. Olha que engraçado, ela tá vestida de palhaço. Já é carnaval?
                Acendem um baseado, o riso rola solto. Mais um desses, tão ficando populares. Fica quieta senão não consigo ouvir. Xi, ficou seria a conversa. Meu deus, o que é que eles tão falando? É isso mesmo? Por que eles estão rindo? Isso não é engraçado. Cala a boca senão eu não consigo ouvir!
                As horas passava e eles continuavam lá, vestidos, conversando. A quantidade de peças no corpo aos poucos diminuía, mas não os assuntos. Eles decidiram se conhecer no motel, é? Gente estranha. Já te falei pra ficar quieta. Ah ta, quando é putaria você não cala a boca, e agora eu não posso falar?! Isso é diferente.  Ih a lá, agora vai.

                Tempos de silêncio e eles voltam, a risada continua. Conseguem ouvir os quartos alheios e mais gargalhadas preenchem o ambiente, junto a certeza de que em nenhum outro aquilo tudo estaria acontecendo. Ela sorri após cada beijo, ele olha e nada diz. Eles já vão né? Já. Será que lá fora a coisa continuam assim? Não sei. Será que eles voltam? Espero que sim. 

domingo, 16 de agosto de 2015

boys like you and girls like me


           Gosto de dias despretensiosos, como aquela quinta que começa com tudo dando errado e acaba sendo exatamente o que você precisava.
            Acordei atrasada, fiquei presa no trânsito, trabalho só problemas, o carinha que eu tanto gostei tomou chá de sumiço, meu fone de ouvido quebrou, enfim, o dia pedia uma cerveja no final para a vida ficar um pouco mais amena. Liguei para uma, duas, grupos de amigas; todas ocupadas. Deve ser inferno astral atrasado.
            Minha amiga de infância atendeu: “Claro que vamos! Vou falar com a Helô, ela sempre anima essas coisas!” Saí do trabalho, mais trânsito, fila interminável no mercado, come qualquer coisa para forrar o estomago, vamos! Mas e o meu banho? Ficou para depois. Era apenas uma cerveja de salvação do dia.
            Um bar fechado. O outro vazio. Esse tá muito caro. Vamos na rua onde tem todo mundo. Mas eu to uó! Passa uma maquiagem na cara que melhora, esse batom vermelho fica bom pra disfarçar essa sua blusa de menino. Tem um desodorante jogado aí no chão do carro.
            Finalmente sentada em uma mesa de bar, com uma cerveja gelada na mão, a vida começava a se tornar agradável. Cumprimentar conhecidos, rir do menino que mandou uma piscada para a minha amiga, beber sem a preocupação de impressionar, ninguém vai prestar atenção em mim hoje mesmo.
            Olha lá aquela menina que estudava com a gente! Ela não tá morando na Austrália? Ah, eu gosto tanto dela! Ela nunca falou comigo no colégio. Vamos juntar as mesas! Oi, eu sou o irmão da Clara, vou deixar as minhas coisas aqui, tudo bem? Sem problemas.
            As horas passaram, os copos enchiam e esvaziavam. Na mesa pessoas com quem nunca havia falado e uma calorosa discussão sobre política. Eu não voto nele. Então você concorda com o governo atual? Não estou dizendo isso, só que não voto nele nem no partido dele. Você é louca, e nem vem que eu sei que essa de trabalhar com pobre é pra se sentir melhor consigo mesma! Obvio que é. Se você não fosse tão comunista namorava contigo.
            Olhei no relógio, já deveria estar em casa. Enchi o copo, agora não faz mais diferença. Levantei, ascendi um cigarro e encostei no carro, já consigo sentir a dor de cabeça vindo. Oi, desculpa qualquer coisa, viu? São só opiniões diferentes, não precisava sair da mesa. Imagina, eu fui só no banheiro mesmo. Ah, ok. Tem um isqueiro? Claro. O que você faz além de ser comunista e salvar pobre? Pouca coisa, não sobra muito tempo. Esse seu batom é um problema, eu não sei se converso com você olhando para os seus olhos ou a sua boca. Você olha para onde quiser.
            Minutos (horas?), beijos, implicâncias e cigarros depois minhas amigas me encontram, já estávamos indo. O Rafa vai te deixar em casa, ok? Como assim? Ele vai te deixar em casa ué. Tudo bem. Vamos? Vamos, só tem uma má notícia. A gente vai de ônibus? Não, de taxi. Então ta ótimo. Para ali, no posto por favor! Por que? Eu preciso sacar dinheiro. Não precisa, eu tenho. Até parece que você vai pagar. Por que? Porque não. É ali no próximo retorno, moço. Por que você ta virando aqui? Porque eu moro ali naqueles prédios. Eu não disse que ia te deixar em casa? Disse. Então para com isso, a gente passa lá em casa e eu pego o carro. Conheço essa história.
            Descemos do taxi a uma quadra da minha casa, poderia voltar a pé se quisesse. Ele bêbado de cair, eu julgando as escolhas da noite. Vou pegar a chave do carro e vamos para um motel, ou você prefere ficar aqui? Eu tenho aula daqui a pouco. Hm, só não pode fazer muito barulho porque a minha mãe ta em casa. Não sou muito boa em não fazer barulho. Quero só ver.
            Fui ao banheiro, joguei uma agua no rosto. Estava cansada e era visível. Que porra de decisão foi essa? Deveria ter ido para casa, to fedendo. Pelo menos ele riu quando disse que estava menstruada e peluda. “Vou ficar que nem o coringa de bigode?” Que tipo de resposta é essa? Bem, agora já estou aqui, melhor entrar no clima.
            Chego no quarto, vazio, apenas a janela aberta mostrando a madrugada. Tirei a roupa, deixei em uma pilha no canto junto com a mochila. Sentei na cama e esperei. Você já está assim? Fico até sem graça. Deita. Quer que eu apague a luz? Não. Assim que eu gosto.
            Subi em cima dele e tirei sua blusa enquanto lambia o descoberto. Mordi a nuca, achei o cinto. Abaixei a calça enquanto colocava seu membro duro na minha boca, ele gemeu. Permaneci ali até ser puxada, não sairia a não ser que me tirasse. Cadê a camisinha? Não tenho. Como assim? Não tenho. Porra, você me traz aqui e não tem camisinha? Ato falho. Pra caralho, vamos comprar. Tá falando sério? Obvio, senão não vai rolar. Aff. Se veste, a gente vai rápido.
            Dentro do carro sua mão na minha coxa, procurando o meu sexo. Eu rindo com um cigarro na mão. Vou parar ali naquele posto, deve ter. Não tem. Como tem tanta certeza? Eu moro ali do lado, vivo lá, nunca vi uma camisinha. Quer apostar? Quero. Então ta, se tiver você vai até lá em casa me chupando enquanto eu dirijo, e vou dar duas voltas no quarteirão. Fica à vontade.
            Ele volta da loja com o maior sorriso que já vi, começo a rir. Sentou, chegou o banco para trás e inclinou, enquanto se gabava da conquista. Ligou o carro e eu abri a sua calça, havia um quê de vitória em perder aquela aposta. Levanta que vou ter que abrir a janela para entrar no prédio. Você não ia dar duas voltas no quarteirão? .... Sorri e voltei ao que estava fazendo, me chamou de safada.
            De volta ao quarto terminamos o que havíamos começado. E começamos de novo. E de novo. Até sermos parados pelos meus despertadores. Preciso ir para casa. Você vai na aula mesmo? Vou, não posso faltar. Queria tanto que hoje fosse sábado e você pudesse ficar aqui. Também queria, mas não posso. Me deixa lá? Só porque você mora perto. Então se fosse longe eu voltava a pé, seu escroto? É
            Descemos o elevador com um senhor de olhar repreensivo, eu descabelada e ele feliz sorrindo. Não acredito que você mora tão perto, muito bom isso. Por que? Porque sim ué, sempre que quiser repetir só falar, tão perto. Você já disse isso. É porque to feliz mesmo por você morar perto. Então valeu a pena comer uma comunista? Claro que valeu, agora até voto no PT.