sábado, 9 de agosto de 2008

I said it's too late to apologize.

Vestiu-se devagar, calçou a primeira bota e tateou o chão pela segunda. O quarto escuro com a janela aberta não lhe exprimia nada, nem mesmo o outro corpo sentado na cama a alguns metros. Respirou uma, duas vezes. Repassou as imagens na mente, procurava partes da roupa tropeçando no piso incerto. Olhou-se rápido no espelho na parede, havia tantos ali, um gosto azedo inundou-se na boca, o estomago revirou mais uma vez. Trocaram palavras sem significado, só pelo falar, talvez fosse melhor ficar em silêncio.
Os pés doídos seguiam seu próprio ritmo, com um rumo ainda incerto. A lua brilhava forte no céu, cheia, cúmplice observadora de tudo. Encheu os olhos de vergonha, afogou-as com a palma gelada da mão. Respondeu o perguntado por educação, não sabia o que estava sendo dito ali. Sorriu e entrelaçou os dedos, mais um de tantos atos falsos. A mentira separada em dois corpos opostos.

sexta-feira, 25 de julho de 2008



Quando a saudade aperta, tudo segue o movimento. Como se cada órgão espremesse contra o outro, na ilusão que se eu ocupo menos espaço, talvez a falta que você faz nele também diminua. É bem ilógico na verdade, não me faz o menor sentido, mas é a verdade.
O coração dói um pouquinho, como se pequenas agulhas espetassem devagar, e logo encolhe até o tamanho de uma noz pronta para ser quebrada. E todo o resto parece seguir o movimento automaticamente; a garganta aperta em um nó, a boca seca, o estomago revira até as paredes encostarem, tudo se junta sistematicamente, explodindo em um brilho aquoso no olhar. São segundos tão longos que é possível contá-los em anos.
Agarra-se as pontas de um fio invisível, segurando com força para não cair.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

why so serious?



O sangue escorrendo pela parede,
Os gritos ensurdecedores,
As lágrimas pingando no chão.
A mão forte que lhe ia ao rosto,
E os risos diabólicos.
As roupas rasgadas e jogadas,
O corpo frio e semimorto,
Atirado no azulejo branco.
O grito implorando por socorro,
A corda que passava pelo pescoço,
Abafando o choro e tirando o ar.
As pernas que já quase não se debatiam,
E os olhos que começavam a cerrar.
Deixou-a, lá, assim,
Nua, atirada, morta, humilhada,
Afogada em seu próprio sangue.

Poema surgido em meados de outubro de 2006. filho unico. meu orgulho.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

to me, you are perfect.

Sabe.... é, acho que sim. Deveria, é tão obvio. Ao menos parece-me assim, transparente. Não sei, é complicado. Sempre foi, certo? Deve ser a graça. Eu só queria.... é, queria. Essa simples vontade no subjuntivo, algo bem ilógico na verdade. Sempre me chama assim; ilógica. Talvez o mais certo fosse “incomum” ou, até mesmo, “louca de pedra” (por você).

Rasgaria os pulmões a gritar cada palavra que te digo com o olhar e não entendes. Aquelas pequenas, com ar de inocentes, que escorregam por entre meus cílios, parecem-me lágrimas invisíveis.
Derrubaria muralhas e queimaria jardins que construí em volta desse castelo. Deixaria que corresse por cada cômodo e corredor, escancarasse portas e janelas, abrisse cada baú trancado com meus segredos dentro.

domingo, 15 de junho de 2008

don't see what anyone can see in anyone else but you


E tudo começou assim: lá estava eu, com aquele vestido cinza e os sapatos pretos, naquele bar até então ignorado na cidade. Salvo algumas pessoas, aquela me era uma mesa desconhecida, mesmo que amigável. Por entre os rostos e corpos espremidos com mãos encostadas em gotas de bebidas pela mesa, estava o seu. Familiar de tão estranho. Na verdade, não me era nada estranho, apenas familiar. Pus-me a te observar por algum tempo, discretamente para que não percebesse. Lembrei-me de já tê-lo visto antes, trocado poucas palavras sem importância, sabia que não lembraria. Afastei a memória e o pensamento de te recorda-la, provável que por vergonha.
Acho que era tão obvio meu interesse por você que logo fora arquitetado um plano para que percebesse. Não por mim, obvio. Até hoje não entendo como não percebeu. Com o passar do tempo encontrei-me conversando com alguém maior que eu calculara antes como se o conhecesse desde a infância, apesar de ser um mero desconhecido com passos tão rápidos quanto os meus. Não acharia impossível me apaixonar por você logo ali.

(....)

E então você me beijou. Não sei o contexto, mas sei que o fez. Estava tonta e enjoada, então não consegui ficar muito tempo, por mais que quisesse. Pegamos copos d’água na cozinha e meu estômago começava a mostrar sinais de estrago pela vodka intra-venosa tomada anteriormente. Idas ao banheiro, purgações e pedidos de desculpa rechearam o resto da noite, enquanto tentava achar qualquer razão para que continuasse ali enquanto me degradava. Acabei por adormecer em seu colo algum momento, incrivelmente a pedidos seus que o fizesse.

(...................)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

just like a song in my heart


Quebrada entre a saudade e a negação costurei os lábios com cetim rosado, evitando que escorressem palavras adocicadas pelo tempo. O estômago invadido e estourado repetidamente pelas borboletas amarelas contagia os outros órgãos, o coração pulsa-me mais vermelho agora, expulsando o cinza do ranço preso em suas paredes.

O oxigênio em meus pulmões tornou-se insuficiente, as células morrem em meu peito abrindo espaço, deixando os ramos com flores roxeadas crescerem. Já invadiram-me a alma. A visão confusa pelas estrelas brilhantes em meus olhos titubeia-me pelos cantos, ofuscam sentidos enquanto giro com a saia rodada sem parar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

the truth is, that I miss you so.




Esboçavam-se meios sorrisos por entre as meias palavras. Eram beijos pela metade, seguidos de amores inacabados. Não havia fim ali, ou inicio, havia medo. Corpos trêmulos de calor e frio com corações rachados dentro, desculpava-se pelas despedidas ao amanhecer.
Cedeu-se palavras ao outro, espaços internos, doces da madrugada fria. Abriu, com dedos finos das mãos geladas, pequenas caixas avermelhadas, já cobertas de poeira, revelou-se luz e sombra.