terça-feira, 2 de março de 2010

à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Imagine-me assim: uma criança, de uns 5 ou quiçá 6 anos, presa em uma loja de objetos de cristal, todos expostos em prateleiras pelos estreitos corredores. São vasos, pratos, copos, lustres e tudo mais que se pode imaginar, cada peça mais linda e delicada que a outra. Pelas primeiras horas observá-los me deixa extasiada, sem necessidade de respirar, apenas absorvendo todo o brilho a minha volta, são tantas cores vindas do cristal transparente. Dias depois, porém, nada me parece mais tão bonito assim; há imperfeições, poeira e rachaduras do tempo, os brilhos são sempre as mesmas luzes refletidas. Ocorre-me a brilhante idéia, a mais infantil de todas: por que não quebrá-los? Chutá-los um a um, ouvir os estilhaços quebrando e voando, batendo uns nos outros, machucar-me na deliciosa anarquia do caos.
Não há ninguém comigo lá, nenhum pai, responsável, ou sequer um vendedorzinho franzido, apenas placas em todos os cantos com “NÃO TOQUE” em letras garrafais e câmeras, muitas câmeras. Sou sempre observada a distancia. Logo passo a maior parte do tempo apenas observando tudo, andando calmamente, vez ou outra arriscando uma corridinha, mas nada demais, afinal, não posso tocar em nada. Já tropecei algumas vezes e quebrei pequenos objetos, mas nada que realmente pudesse me incriminar, foram apenas acidentes de percurso. Meu desejo de parti-los apenas cresce, enjaulado como uma fera, gritando cada dia mais.
Até que um dia, dia qualquer, eu acordo sem câmeras, ou sequer avisos nas prateleiras. Há mais luzes e lâmpadas, poucos cantos escuros para esconder-me caso algo de errado, mas nada para me avisar o que isso seria. Fico um tempo estática, esperando a pegadinha, procurando algum pequeno sinal de erro, mas não há nada lá. Talvez a loja tenha sido fechada, e me esqueceram dentro junto a todos aqueles objetos, agora já sem importância.

4 comentários:

Stutz disse...

Então, quebra tudo.
HAHA

Branca disse...

Tô no meio de um monte de cristais. Se eu me mexer ou respirar, tudo se quebra. Se eu não respirar, morro. O texto tá lindo.

R.L. disse...

Tá lindo mesmo..
Conheço esse negócio de tenho em mim todos os sonhos do mundo..de quem é?
bjs

Clarissa Braga disse...

Muito inteligente esse final, quando você se encontra sozinha, sem ninguém, sem aviso, nada pra te impedir, e os objetos perdem a importância. Muito, muito bonito. O texto tá brilhando como um cristal, moça.