domingo, 5 de junho de 2016

“I’m gonna love you inside out”


                Meus dias costumam ser preenchidos pelas mais tenebrosas histórias contadas pelos pacientes. Violência. Abuso. Negligência. Pobreza. A cada consulta, uma nova desgraça. Um pequeno pedaço de mim que morre ao ser lembrado da crueldade do mundo.
                Mas às vezes, muito raro, o amor vence tudo isso. Contra todas as probabilidades, desgraças e desavenças do mundo, o amor vem me lembrar de que ainda há beleza no universo.
                Dona Violeta entra na sala de cabeça baixa e senta na cadeira destinada aos pacientes. Veste uma bermuda jeans e uma blusa rosa, suas sandálias têm flores bordadas. Somos eu e mais diversos alunos para iniciar a consulta, é sua primeira vez em um consultório psiquiátrico. Começamos com a pergunta de praxe: o que trouxe a senhora aqui hoje?
                Ela começa a nos contar, com seu sotaque nordestino, que há seis anos perdeu seu filho e desde então não dorme direito. No início conseguia contornar, muito mal, com medicamentos fitoterápicos além de outras coisas naturais como chá de camomila. Mas há dois anos, quando seus sintomas pioraram, procurou seu médico que lhe receitou Diazepam 2 mg todo dia para dormir. Atualmente só adormece quando toma pelo menos meio, e as vezes um inteiro, do remédio.
                Pedimos então para que ela nos conte sobre a morte do filho. Ela diz que teve três filhos, dois gêmeos e uma menina. O pai a abandou há muitos anos e ela veio para o Rio junto com eles, trabalhar para dar a todos uma vida melhor. Sempre foram uma família unida. Quando fez 18 anos Miguel, um dos gêmeos, decidiu sair de casa para viver sozinho. “Vocês não têm que se meter na minha vida! ” Ela repete diversas vezes como sendo a justificativa dele. Foi morar na Lapa junto a uma cafetina. Começou então um processo de modificação do seu corpo: raspou a barba e pelos do abdômen, injetou silicone industrial nas pernas e bunda, nos peitos colocou silicone com um cirurgião. Ela nos conta isso com calma, sem alterar seu tom de voz.
                Incrédulos, perguntamos se isso foi difícil para ela. Ela nos responde que fácil não foi, mas era seu filho e ela o amava do jeito que era. Seu atual marido, padrasto dos meninos, teve maior dificuldade de aceitação. Ela diz que conversou com ele, afinal era seu filho e se fosse para escolher era obvio quem preferiria. No final, todos se acertaram, do jeito que eram.
Em uma das visitas Carlos, o outro gêmeo, sinalizou para a mãe o inchaço em uma das pernas do irmão. Ela, preocupada, ao tocar na perna de Miguel percebeu que estava fervendo de quente, além de muito vermelha e dolorida. Começou então uma militância pela saúde do filho. Alertou diversas vezes sobre a colocação de silicone industrial no corpo, pratica ilegal, e que ele deveria ir ao médico avaliar aquilo. Foram meses de convencimento até conseguir leva-lo a um hospital. Lá o avaliaram e marcaram a retirada cirúrgica do silicone na perna inflamada.
Nesse meio tempo ela o convenceu a retornar para casa, não para seu controle, mas para auxiliá-lo com sua saúde. Foi a diversas consultas medicas com ele, sempre que podia nas folgas do trabalho. No dia da internação para a retirada do silicone industrial, ela estava trabalhando então não pode acompanhá-lo. Ele não foi. Em vez disso voltou para a casa da cafetina na Lapa, ela nos conta com voz de tristeza. Lá votou a se prostituir e a colocar mais silicone nas pernas, “se sentia mais bonito assim”.
Meses se passaram e a saúde Miguel, que agora se chamava Michaela, deteriorava. Pegou um resfriado leve, mas nunca se curou. Tossia todos os dias, constantemente, sua voz agora rouca pela grande quantidade de secreção. Já não visitava mais a mãe alegando falta de tempo e dinheiro para a passagem. Com saudades do filho, Dona Violeta se encheu de coragem e foi visita-lo na casa da cafetina na Lapa. Chegando lá, quase não reconheceu seu próprio filho. Estava magro, com a pele acinzentada, mal conseguia falar pela falta de ar. Sequer se levantou para cumprimentar a mãe, pois não tinha forças.
Desesperada, ignorou as negações do filho e o colocou em um taxi com destino ao hospital mais próximo. Lá foi prontamente internado, estava com um quadro grave de tuberculose pulmonar. Por medidas de segurança não deixaram Dona Violeta permanecer muito tempo próxima ao filho, por mais que pedisse e implorasse a todos os funcionários do hospital. Três dias depois quando foi visita-lo, recebeu a notícia de que havia falecido durante a madrugada.
Ela nos conta que constantemente revê em sua mente a cena do filho magro, internado, com a máscara de oxigênio no rosto e ainda assim dificuldade para respirar. Só em nos contar Dona Violeta treme e diz sentir o coração doer, junto com um grande aperto na garganta. O mesmo que senti durante toda sua história.
Perguntamos então sobre outras coisas de sua vida, o trabalho, planos para o futuro e como está a família depois desse evento. Ela diz que se voltou a estudar para completar o ensino médio e ano que vem pretende cursar enfermagem. “Gosto muito de cuidar das pessoas. Trabalho na casa de um casal de idosos e me ajuda muito a ocupar a cabeça.” Diz que evita ao máximo ficar sozinha, pois senão lembra do filho. Conta também ter muito medo de perder o outro gêmeo, que agora está com pedra no rim. “Ele ficou muito mal depois que o irmão morreu, toma quatro remédios para depressão”. Questiono se ele faz terapia, afirmando que um tratamento não funciona sem o outro, ela diz que foi a uma sessão e nunca mais voltou.
A essa altura nosso professor, o psiquiatra, já havia entrado na sala e esperava acabarmos de colher os dados para repassá-los a ele. Contamos a história de forma resumida, relatando a ele o sofrimento de Dona Violeta. Ele então a questiona sobre seu apetite, e se sente culpa pela morte do filho. Ela afirma que sim, pois pensa que talvez de alguma forma poderia ter mudado o seu destino. Ele discute com ela sua medicação, a necessidade de mirarem a suspensão do Diazepam pela forte dependência associada ao seu uso, e adiciona Escitalopram para tratar de forma adequada o seu quadro.
Termina a consulta com uma conversa com Dona Violeta, sobre sua culpa. Infelizmente não podemos controlar as ações de nossos filhos após adultos, apenas aconselhá-los a fazer o que consideramos melhor. E isso, ela havia feito, da melhor forma possível. Ela concorda. Ao sair do consultório cumprimenta a todos nós de forma carinhosa, agradecendo pela atenção. Após sua partida discutimos seu provável diagnóstico, Transtorno do Estresse Pós Traumático, elogiamos sua força como mãe e partimos para o próximo paciente.
Nesse momento saio da sala para ir ao banheiro, encontrando Dona Violeta sentada na cantina bebendo uma água. Questiono se ela está melhor após ter partilhado sua história conosco, ela afirma que sim com um sorriso no rosto e me convida para sentar ao lado dela para conversar rapidamente. Puxo uma cadeira e me ponho a escutar. Ela conta que seu outro filho, Carlos, é HIV positivo há alguns anos. Diz ter ficado sem graça de falar sobre isso na frente de tantos alunos, por mais que tenha gostado de todos nós.
Carlos, na verdade, fora junto com Miguel quando ele saiu de casa. Após a morte do irmão ela, vendo como seu filho havia ficado deprimido com a perda, o convenceu a voltar e morar em um pequeno quarto que havia no andar de cima de sua casa. “Assim ele tem a privacidade dele, mas continua próximo a mim”. Ela diz que o filho toma muitos remédios, somando o coquetel e os medicamentos para depressão, e se sentiu muito mal no início do tratamento. Eu afirmo a ela que é assim mesmo, são remédios muito pesados, mas que o ajudarão a ter uma vida melhor e mais longa.
Ela conta que ele a pede para chamá-lo de Bia, e não mais seu nome de batismo. Afirma que o chama de Bianca pois acha mais bonito. Questiono se ele tem o hábito se usar roupas femininas, ela diz que sim. Saio então do meu lugar de estudante de medicina, e como humana, começo a elogiá-la. Pelo seu grande amor e aceitação dos filhos, pela sua garra como mãe. Pelo ser incrível que senta na minha frente, dotada de uma sensibilidade e inteligência anos luz de seu tempo e idade. Ela rí sem graça e me responde que são seus filhos, que outra opção tem senão amá-los?
Sua irmã constantemente fala que é coisa do demônio chamar homem com nome de mulher, e permitir esse nível de perversão na sua casa. Eu digo que não sou religiosa, mas pelo pouco que conheço Jesus nos ensinou a amar uns aos outros, sem restrições de grupo. Ela concorda e que pecado é ter filho que mata, rouba, estupra. “Ele não faz mal a ninguém, doutora. Vai da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Não me dá nenhum problema. O que custa chamar ele de Bianca? Julgamento quem tem que fazer é Deus, eu só posso amar o meu filho e aceitar ele do jeito que ele é.”
Com lágrimas nos olhos eu concordo com ela, dizendo que está coberta de razão. Convido a ambos para virem a uma roda de conversa comunitária quando puderem, pois seria bom ter Bianca se tratando junto a mãe. Me despeço com o coração aquecido, dizendo que preciso voltar para as consultas. Ela me agradece pela atenção e diz que tentará trazer seu filho.


Passo o resto do dia com a certeza de que mundo precisa de mais Violetas. Para colorir todo esse cinza que embaça as nossas vistas e nos faz esquecer algo tão fundamental: amar uns aos outros do jeito que são. Sem restrições.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

I ain't thinking about you

Em tempo de caça às bruxas sou eu quem acende a fogueira. Começo pelas minhas cartas, cujas palavras profanadas já não nos cabem mais. Sigo pelas suas, rasgadas e manchadas pelas minhas lagrimas. Termino com nossas promessas, distorcidas e derretidas. A fuligem sobe aos céus, carregando tudo o que fomos. Agora, não há mais nada lá. 

domingo, 1 de maio de 2016


Ele me olha e eu me sinto nua. Vesti meu casaco mais pesado e seus olhos verdes o retiram em apenas um relance. Suas mãos abrem o laço do vestido e são minhas verdades que caem no chão. As cicatrizes expostas sangram enquanto meus olhos secos focam o infinito. Beijo seu rosto em uma prece, repetindo o nosso amor.


Prayin' to catch you whispering
I'm prayin' you catch me listening
I'm prayin' to catch you whispering
I'm prayin' you catch me

quarta-feira, 6 de abril de 2016

                               T. e F. entram no consultório de cabeça baixa. T. tem 30 anos e F. 15. Ambas com a pele cor de avelã e os cabelos negros e longos cobrindo o rosto. Poderiam ser irmãs, mas são mãe e filha. Sentam uma ao lado da outra na minha frente, T. agora olha para mim como quem teve o coração partido, F. continua encolhida e com a cabeça baixa, mal ocupa espaço na cadeira.
Pergunto como chegaram até mim e a terapia de família, T. diz que foi encaminhada pelo juiz da vara de família e me entrega uma folha com o resumo do seu caso. Leio e evito olhar para cima, controlando minha respiração e minhas emoções. Essa vai ser uma consulta longa. Devolvo o papel e peço para me contar desde o inicio.
A partir desse momento as historias de mãe e filha se entrelaçam ao ponto de se confundirem. Além da obvia participação de uma na vida da outra, há quase a repetição de um padrão. Como se o presente fosse uma mera reprodução do passado. Contarei em ordem cronológica apenas para facilitar a compreensão.
T. conta de uma infância humilde em uma pequena cidade próxima a Manaus. Tem muitos irmãos, homens e mulheres, os quais foram todos criados pela mãe. O pai, alcoólatra, ela comenta que saiu de casa quando ainda era nova. Não sabe dizer nada além disso sobre ele.
Diz que desde cedo ajudava com as tarefas da casa, e mesmo não sendo a mais velha constantemente ficava responsável pelos irmãos quando a mãe se ausentava. “Não sei porque, dotôra, acho que eu era a mais responsável, mesmo sendo nova. ”. Conta com pesar sobre as surras dadas pela mãe, sempre piores nas meninas que nos meninos, e ainda mais severas com ela.
Aos 10 anos decidiu sair de casa. Seu sonho era trabalhar em casa de família; terias as mesmas tarefas com as quais já estava habituada, mas agora com a chance de independência e longe das surras da mãe. Pegou um ônibus e foi até onde conseguiu, mas logo a encontraram. Diz que nunca apanhou tanto na sua vida quanto naquele dia.
Passados alguns meses dois homens batem à sua porta, dizendo que estavam lá para levar ela e a irmã para uma casa de família. Ela sentiu o coração palpitar e logo estava na porta com a mala pronta. Era a sua chance de sair de casa e realizar um sonho. A irmã chorou e esperneou até desistirem de leva-la. Diz lembrar de fazer uma viagem longa de carro, e que os homens se recusavam a responder quaisquer das suas perguntas de criança ansiosa. Apenas a mandavam ficar quieta.
Quando finalmente chegaram ao destino, sua casa de família havia se transformado em algo bem diferente. Eram diversos quartos, pequenos, enfileirados um ao lado do outro e unidos por um corredor. As meninas que trabalhavam lá eram um pouco mais velhas, todas com pouca roupa no corpo. “Elas vão te explicar como funciona, amanhã você começa.”. T. ainda tinha 10 anos.
Pela noite as outras meninas, assustadas com a idade da criança entre elas, a ajudaram a fugir. Passou algumas semanas dormindo na rua e contando com a caridade de estranhos para sobreviver. Um dia ela diz ter pedido um copo d’água a um senhor, que então a ofereceu um emprego e lugar para morar. Era um advogado, pai de duas crianças pequenas e com a necessidade de alguém para ajudar sua esposa nas tarefas caseiras. Ela conta que nunca foi tão feliz.
Após aproximadamente 3 meses trabalhando nessa casa, seu patrão diz que vai leva-la para sua mãe. Tinha escutado no rádio o pedido de uma mulher procurando por sua filha, perdida, e pela descrição com certeza era T. Ela pediu, implorou, mas ele por medo das implicações legais de ter uma menina desaparecida menor de idade trabalhando em sua casa, a levou mesmo assim. Chorou todo o caminho de volta.
O retorno para casa foi pior que da primeira vez. A mãe, cansada da rebeldia da pré-adolescente, a abarrotava de tarefas e afazeres. Seus irmãos agora não faziam mais quase nada, apenas ela cuidava das coisas. As surras também haviam piorado. Tentou procurar o pai, mas, sem sucesso, decidiu mais uma vez fugir de casa. Mesmo que morasse na rua, lá ela não ficava mais.
Então, aos 11 anos, ela se tornou mais uma criança na rua. Conta com profunda vergonha das coisas que fez para tentar sobreviver; diz que até teve que se prostituir e me pede desculpas pelas coisas que está contando. Respondo que não há nada de vergonhoso em nisso, pois ela fez o que precisava para sobreviver. Logo, nada de me pedir desculpas. Volto minha atenção rapidamente a F. e pergunto se ela sabia dessas coisas, ela apenas balança a cabeça negativamente. Ainda não conheço o som da sua voz.
Aos 12 anos ela me diz ter descoberto o amor. Era outro menino morador de rua, um pouco mais velho. “Com ele eu me descobri mulher, me entreguei inteira” ela diz enterrando o rosto entre as mãos. O resultado do amor da adolescência nesse caso não foge muito do esperado. T. engravidou e o então amor de sua vida logo desapareceu.
Sem opções, gravida aos 13 anos, ela bate na porta da mãe pedindo ajuda. Essa lhe responde dizendo que era isso mesmo que ela merecia por ter fugido de casa para virar vagabunda na rua. Após longos pedidos e horas implorando, a mãe a aceita de volta. Mas com a condição de pagar pelo próprio sustento.
A partir desse momento, e durante todo resto de sua gravidez, sua mãe a aliciou. Um cliente após o outro, ela pagou com o corpo o sustento para a própria mãe. Seu bebe nasceu prematuro e, infelizmente, não sobreviveu. T. nunca mais voltou para casa depois da alta no hospital.
Com então 14 anos ela se viu na mesma situação que parecia ser seu destino: moradora de rua, fazendo o possível para sobreviver. Após alguns meses, em um abrigo, ela conhece uma mulher e seu filho, um menino de 12 anos. Ouvindo a história de T. essa senhora se comove e faz uma proposta: casar-se com seu filho para assim tornarem-se uma família e tentarem sair daquela situação juntos.
T. diz ter achado a senhora louca, como que ela com 14 anos iria se casar com o menino de 12? Mas, levada pela falta de melhores opções, ela aceitou. Assim se passaram 15 anos, e após 3 filhos, dois meninos e a menina mais velha, ela está sentada no meu consultório, pronta para contar a história de sua filha.
Nenhuma das duas sabe me precisar uma data de início, mas ambas concordam com a idade: começou quando F. tinha 13 anos. T. se recorda de uma viagem que fez, para visitar os parentes em Manaus, na qual pretendia levar a filha junto. O pai então, preocupado com seus estudos, disse que seria melhor a menina ficar em casa com ele e assim não perder aulas na escola. Ambas, seguindo a lógica racional, concordaram. Era seu pai, além de assim F. poder ajudar a cuidar dos irmãos. T. lembra com lágrimas correndo pelo rosto de perceber a filha diferente ao voltar.
Pergunto se durante esses anos T. suspeitou de algo, ela me responde não com toda culpa que essa pequena palavra pode carregar. Diz que suas vizinhas a alertavam, mas nunca sobre algo concreto. Falavam do ciúme excessivo do pai com a filha, “algo meio homem e mulher”, e sobre as roupas provocantes com as quais ele constantemente a presenteava.
Porém, toda vez que qualquer falatório se iniciava, ou quando a menina conseguia fazer amigos, eles se mudavam. Sempre haviam razões e explicações, normalmente relacionadas a emprego, então T. aceitava sem muito questionar. Diz que para não dar atenção aos boatos, se concentrou no trabalho. Aumentou sua renda, mas diminuiu seu tempo em casa. Como se fugisse de algo lá.
Enquanto isso, F. se tornava uma menina reclusa. Além das constantes proibições do pai em relação as suas amigas, ou qualquer um que se aproximasse, ela cada vez menos falava. Começou a ir mal na escola, repetiu então duas séries. Pergunto porque ia mal nas matérias naquela época, ela me responde que não conseguia se concentrar. Digo que realmente deveria ser muito difícil se concentrar com tudo que acontecia. Ela consente com a cabeça.
T. diz que F. tentou procurar ajuda algumas vezes, mas que infelizmente ela não entendia. Nos dias de folga do pai, às segundas como a própria filha enfatiza, constantemente pedia para ir ao trabalho junto à mãe. Sem saber o porquê daquilo, e dizendo que ela deveria ficar em casa para ajudar o pai com o almoço, sua mãe constantemente negava o pedido. Pergunto se era nesses dias que acontecia, quando eles estavam sozinhos em casa sem a mãe ou os irmãos, ela consente com a cabeça enquanto chora calada.

Esse ciclo se repetiu durante 2 anos. As mudanças, a reclusão da filha, a negação da mãe, o abuso sexual feito pelo pai. Até que em janeiro desse ano, a menina finalmente rompeu o silêncio. Não com a mãe, mas com uma amiga e confidente de ambas. A partir da abertura dessa caixa de pandora, tudo na vida das duas mudou. E o fato de que sou capaz de reproduzir essa história é talvez uma das maiores provas disso.

terça-feira, 1 de março de 2016

you forgot how we fell in love


Você entrou na minha vida como uma tempestade. Haviam trovões, risadas, rajadas e chamegos. Os rios encheram e transbordaram amor, deixando-me encharcada. Em meio a água tudo florescia, meus campos se encheram de cor mesmo com o céu cinzento.
Mas como toda chuva de verão, você partiu tão inesperadamente quanto chegou. O sol brilha e o calor secou as minhas plantas, não há uma brisa sequer no ar. As nuvens passam esparsas, altas, não deixam escapar uma gota. Do meu jardim fazer-se-á deserto.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

                O coração vazio me pesa no peito como chumbo.
                As palavras de tão negadas, secaram.
                E não há mais droga no mundo que me traga de volta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

#meuamigosecreto

#meuamigosecreto saiu com a ex por 6 meses antes de decidir que estes eram namorados, mesmo que o fossem em todos os sentidos. No final desse período ela viajou para fazer sua última prova de vestibular, e após isso saiu com os amigos e usou substâncias psicoativas para comemorar. Essa foi a gota d’agua para ele, pois não podia levá-la a sério com atitudes assim e terminou o relacionamento (que de certa forma nunca havia começado) com essa justificativa em uma conversa de msn.
Passados alguns dias, muito arrependido, ele viajou para encontra-la, pediu desculpas e os oficializou como um casal de namorados. Na mesma noite brigaram sobre como praticariam sexo, já que ela não queria fazer o que ele pedia, mas ele achou que com insistência conseguiria. E, ao longo dos dois anos de relacionamento e muitas brigas sobre o assunto, conseguiu. Até hoje esse é um assunto delicado para ela.
Com o tempo o relacionamento, que de iniciou como uma relação entre iguais, se tornou um molde da personalidade dela. Pois ela deveria agir, se vestir e portar de uma determinada forma para merecer o amor do namorado. Ama-la como era, claramente, não ia rolar. Não podia fazer tatuagens (mesmo querendo fazer uma há anos), pois ele dizia não querer a linda pele dela manchada. Chegou um dia com um piercing novo na orelha e a resposta foi “por que você não me avisou antes?”. Não podia usar as substâncias que queria porque gente séria não usa esse tipo de coisa, mesmo que os amigos que dividiam apartamento com ele usassem diariamente. Afinal, os amigos não eram a namorada dele.
A frequência dela em eventos sociais da recém iniciada faculdade sempre eram um assunto polêmico. Ele dizia que não a proibiria de ir, pois já tinha sofrido isso em relacionamentos anteriores e sabia o quanto era ruim. Porém, toda vez que a namorada comparecia em um começava uma enxurrada infinita de mensagens de textos, com assuntos complexos e inadiáveis. Caso demorasse a responder brigavam pois se ela não dava atenção a ele claramente estava fazendo algo de errado. Se chegasse atrasada após a festa na casa dele, seria outra discussão. O que estava fazendo? Não dava pra voltar antes? Alguém chegou em você? Tem certeza? (que diferença faz?)
Uma vez, enquanto brigavam porque ele vasculhou o facebook dela e encontrou uma conversa com um menino que não o agradou muito, ele levantou a mão. E ela teve certeza que ia apanhar naquele momento, ali, naquele apartamento vazio a 300 m de uma delegacia. Por sorte ele desistiu do ato e abaixou a mão para o lado enquanto pedia desculpas, dizendo que nunca faria isso com ela. Depois riu e zombou quando ela respondeu que se batesse, ela iria na delegacia na mesma hora. Ele já havia agredido outras exs-namoradas.
O termino foi uma das situações mais traumáticas da vida dessa menina. Ela se deprimiu, pensou em se matar. Ela o amava com todo o coração, mesmo com os constantes abusos verbais e morais. Ele a havia convencido que, sem ele, ela estaria sozinha no mundo. Afinal, quem iria amar uma gordinha sem graça como ela e com tantos problemas na cabeça? Alguns dias depois de terminarem ela recebeu uma mensagem de um facebook anônimo sobre como ele ria dela com os amigos dele, porque ela tinha engordado, sobre como apenas a namorou pois era mais nova e fácil de manipular, além de amável e que o tratava bem, e sobre a ida de outra menina (que já havia sido pivô de outras brigas durante o relacionamento) a casa dele no mesmo dia em que terminaram, mesmo que na época ele dissesse ainda gostar dela e que voltariam em algum tempo. Até hoje não sabe a veracidade da mensagem, mas sinceramente já não duvida muito.
Ele permaneceria na vida dela ainda por muito tempo, mesmo após iniciado um novo namoro com sua atual esposa, pois sabia que ela ainda tinha sentimentos por ele. Um dia em uma conversa bêbado pelo computador ele disse “o ruim de estar bêbado e com insônia é que não da pra bater uma e dormir” e ela se tocou que se ele não respeitava a então namorada, com certeza nunca a havia respeitado.
Pois é amigo, o único problema que eu tive na cabeça foi permanecer presa a você por tanto tempo.

(25/11/2015)