sábado, 17 de novembro de 2007

É como a dor de rir demais...

Sentava encolhida, no canto da cadeira, lendo com a luz fraca. Percebia um ou outro que passava, os que a olhavam curiosos, a menina esquecida na cadeira com o livro na mão. Ele já a notara havia algum tempo, a distância, mas hesitava, não tinha certeza. Ou talvez tivesse, o medo poderia ser maior. Reconhecia seus traços fortes e o cabelo curto, a faziam especialmente única, assim como o livro e a forma que se encolhia na cadeira, bem no canto, como se temesse ocupa-la demais.
“Oi?” Falou tímido, sabendo que ela ainda não o teria visto aproximar, não desviava do livro havia tempo.
“Ah, oi. Está há muito tempo ai? Juro que não percebi, me distrai tanto.” Havia algo estranho no seu rosto, uma expressão, como se misturasse dor e felicidade, era confuso, mas ambos sabiam que certo.
“Não, não. Te reconheci de longe, mas demorou um pouco, então só me aproximei agora.”
“Ah, sim.” A expressão continuava a mesma, e ela sabia, olhou para baixo tentando esconder, com a desculpa de guardar o livro.
“Como ta? Tudo bem?” Parecia mais uma pergunta preocupada que casual, talvez devesse ser, mas não queria ouvir nada sobre isso, não queria ouvir absolutamente nada (dele).
“Tudo ótimo. E você?”
“Tudo...... bem.” A demora da resposta deveria dizer algo, mas a menina não prestara atenção, ainda tentava acalmar o coração com barulhos altos demais para seus ouvidos.
A casualidade era estranha, incomoda, quase falsa. Provavelmente fosse, como sempre era. Havia demais ali.
“Então, me diz algo que eu não saiba sobre você.” Ele sorriu enquanto fazia a pergunta, talvez zombando de tê-la roubado, ou quem sabe da resposta.
“Odeio pessoas sem criatividade.” Não riu, queria, mas era tentar demais, ainda não o olhara nos olhos.
“Isso eu já sabia.”
“O que quer ouvir de resposta?” Segurou-se antes de falar demais, era melhor deixar frases pela metade. “Não me venha pedindo verdades.”
“Por que não? Sempre achei a graça da pergunta.”
“Porque eu posso começar a exigir a mesma coisa de você.”
Fez-se silencio, pairou por muito tempo, enquanto olhava-se para baixo, tentando distrair o outro com os sapatos, ou a si mesmo, tanto fazia.
“Tenho que ir.” Ele mentiu, olhando o relógio. “Estou atrasado.” Foi uma mentira engraçada, obvia, um tanto desnecessária.
“Está sempre atrasado, ou é mais conveniente dizer assim.”
“Talvez, mas tenho que ir.”
Abraçou e deu um beijo na bochecha, como das ultimas vezes. Ela quis sair, talvez seus músculos tenham se movido, provável que não, mas ficou ali, ainda escutando o coração. Acalmou-se a medida que ele andou, afastando, a respiração voltando ao normal, esperou, saberia a hora de faze-lo.
“Hey!” Ela chamou, a voz quase falhando, a garganta seca, fechada.
“O que foi? Demorou tanto para pensar numa resposta?” Provocou, ainda querendo a verdade.
“Um dia eu te falo.” Era mais que precisava saber, muito mais.
“A verdade?”
“Sim, toda.”
Ou quase, ambos preencheram a frase, no silencio, em segredo. Novamente, havia demais ali.

Um comentário:

Free thinkers are dangerous! disse...

Adoro textos onde narram as ações dos personagens junto com seus pensamentos. Muito legal.
Pena que as pessoas nunca contam a verdade.

Ah, eu ma apaioxnaria por essa garota. Só pelo jeito que ela senta na cadeira segurando o livro.

Obrigado pelo comentário; você tem um ótimo blog.