terça-feira, 3 de agosto de 2010

[ Fink - This is the thing ]


Ela deitou e o abraçou, a madrugada invadia o quarto com o barulho dos carros e a luz dos postes lá fora, dentro apenas o lusco-fusco. Deslizou o dedo pelas suas costas nuas, ele tremeu, talvez estivesse frio, o cobertor sempre dava uma sensação de calor sufocante.
"Achei que tivesse ido."
"A mala está feita, perto da porta. Junto aos sapatos e ao guarda-chuvas."
Ele olhou para a janela, estava bem a sua frente. A luz laranja sempre o incomodou, achava a felicidade quando a lampada queimava, mas sempre vinha alguem logo trocar. Já a quebrara algumas vezes de propósito, para conseguir dormir. Não via as gotas de chuva refletidas na luz.
"Vai levar o guarda-chuva? Está noite clara lá fora."
"Mas uma hora o tempo muda, sai o sol e entra a chuva."
"Engraçado, este já não aparece aqui faz tempo."
Ela o abraçou. Choravam em segredo. Ele na verdade, ela nunca conseguiu esconder as emoções, ou os soluços. Tirou a blusa, sentiu o encostar das peles e o roçar dos moletons, identificou cada sabor e nota do momento. As lágrimas seriam as ultimas gotas de limão necessárias.
"Por que voce vai?"
"Porque preciso."
"Mentira, vai porque quer."
"Mentira, é pelos dois."
Ele virou e a olhou nos olhos, sentiu-se afogar por tudo ali. Havia amor em dor, em conflito, em completude. Havia ela. Havia ele. Não havia nada.
"Fica."
"Não."
"Por favor."
"Não posso."
"Então vai. Vai e não volta, fica aonde quer que seja. Não pense em mim, não traga o vento com o teu cheiro. Leve todos os livros, senão os queimarei. Nunca gostei de nenhum deles, sabia? Nunca gostei de nada na verdade...... só de voce."
"Sabe.... voce nunca soube mentir. Ou ser cruel."
Beijou-o na testa, vestiu a camisa amarrotada, pegou a mala na porta, o guarda-chuvas e saiu. Errou por horas; no corredor, na calçada, no hall de novo, no elevador, até encontrar o carro na antiga vaga na garagem. Abriu o porta-luvas e deixou a carta ali, sabia que demoraria a lê-la, se é que o faria, mas estava lá. Em palavras que não a pertenciam, mas muito melhores. Na verdade, não importava mais. Trancou o carro, deixou as chaves na portaria, e saiu para nunca mais voltar. Não olhou para tras sequer uma vez.

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente"

5 comentários:

Anônimo disse...

sempre textos tristes

Mariana Stutz disse...

Sempre textos que refletem o que só você sente; e se há tristeza, há também renovação.

Nunca mais voltar ali.
Recomeçar várias outras vezes aqui.
E assim vai.

Eu sempre gosto.

R.L. disse...

" Tristeza não tem fim, felicidade sim"

E é por isso que devemos eternamente recomeçar, a procura da felicidade que acaba.
E é por isso que devemos eternamente escrever, em prol da tristeza que é infinita.

Beijos alcoolizados.

Clarissa Braga disse...

a nossa conexão foi boa, amiga
eu me identifiquei bastante com esse momento, por causa de bem.... vc sabe. ahha
gostei.
conseguiu mostrar a crueza e a tristeza parada de uma despedida.

Anônimo disse...

"não há felicidade que nunca se acabe nem tristeza que sempre dure"