sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

fill these spaces up with days.

Cumprimentou-o com os lábios úmidos, deslizou mãos e braços pelo seu corpo até envolvê-lo por completo. Afastou e olhou seus olhos, doces, sorriu. Não haviam mais palavras a serem ditas, não pelo peso que carregam no ar, mas por sua desnecessidade. Sentou ao seu lado no sofá e mais uma vez o envolveu, a ponta do nariz gelado encostando em sua bochecha.
“está com frio?”
“um pouco.”
“quer entrar?”
“hm. Não. Quero ficar com você.”
“Você pode ficar comigo lá dentro. Sem frio.”
“eu sei, mas movimentos são pesados demais para agora.”
Odiava quando falava palavras que não entendia, dessas metafóricas. Gostou apenas da idéia de ficar sentado lá ao seu lado, ela encolhendo seu pequeno corpo contra o dele a procura de calor. Havia se habituado aquele local, a essa casa quase tão sua quanto dela. Riu dos seus espirros altos e seguidos, se preocupava com essa alergia a tudo que nunca ia embora.
“Vamos entrar?”
“ai, que chato! Eu vou fazer café. Quer algo?”
“que você não fume.”
“algo para você...”
“isso é para mim.”
Apenas o olhou feio. Evitava ao máximo fumar ao seu lado, e secretamente haviam combinado que a hora do café também seria a do cigarro, mas isso só aconteceria uma vez no dia. Riu sozinha na cozinha dos pequenos acordos que faziam em silêncio, como o de nunca dizer “tchau” ao se despedirem para diminuir a saudade. Esperou a água ferver e serviu-se da xícara grande de café, seria mais uma das longas noites. Debruçou-se na janela da cozinha enquanto acendia o cigarro, o gosto doce para complementar a falta de açúcar.
“ah, é por isso que demora tanto.”
“você não gosta, não quis fazer perto de você.”
“entendo. Quer companhia?”
“desde quando você fuma?”
“não fumo. Só vou ficar ao seu lado.”
Riu seu sorriso bobo mais uma vez, este havia se tornado freqüente desde que a conhecera. As pernas magras com o fino torso apoiado na janela, sua xícara ao lado, o cigarro na ponta dos dedos, dava vontade de possuí-la ali. Era uma cena bonita, só por tê-la nela, mesmo com aquela coisa fedorenta na ponta. Não sabia por que continuava nos antigos vícios, pareciam de tanto tempo atrás, de outra pessoa, e gostava tanto da nova. Não seria outra, mas uma versão melhor da velha, mais.... arejada? Já começara a falar bobagens sem sentido.
“Então....”
“Então o que? Vou para perto quando acabar aqui. Está quase no fim.”
“Eu sei. Queria saber como será hoje.”
“Não sei. Como quer?”
“Como sempre.”
“hahaha. O típico conservador.”
“É por isso que gosto de só vir a você.”
Não entendeu a ultima frase, era de demais intimidade. Gostava apenas do fingir, da intimidade de velhos, e íntimos, amigos, mas mais que isso significaria problemas. Era doce e gentil e a tratava bem, apenas isso. Qualquer caminho diferente destruiria isso, a leveza.
“Já está tudo na caixinha.”
“Obrigada.”
“E como sempre...”
“Ai, não de novo! Sempre a mais! É tão bobo.”
“Talvez. Vamos?”
“Sim. Já sabe o caminho.”
E assim a porta se trancou mais uma vez, fechando o mundo a sua minimalidade e expandindo aquelas quatro paredes carcomidas pelo tempo. Talvez. Talvez a vida deveria resumir-se a só isso, esse momento, esse exato momento. O que acha?

2 comentários:

Rodrigo disse...

Gostei desse.

Diego Calori disse...

Foi o melhor que já li seu.