segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

and you turned away and I wonder...


Sentou na escrivaninha, abriu a gaveta e tirou o papel amarelado pelo tempo junto à caneta tinteira do avô. Analisava cuidadosamente cada ação ao mesmo que se indagava porque, diabos, fazia aquilo. Não havia sentido, lógica ou razão para remexer em segredos escondidos de si dentro da alma, para abrir tão impiedosamente o próprio coração, mas agora estava decidido e seria feito.
Pegou e soltou a caneta inúmeras vezes antes de decidir que tudo aquilo era uma imensa bobagem e que apenas se fazia de idiota, afinal, não teria nada a escrever além de “oi” e outras palavras borradas a lágrimas. Nem sabia se a reconheceria depois de tantos anos ou se, na pior das hipóteses, a carta chegaria ao longínquo continente. “Ainda assim merecemos esse final”, repetiu baixo enquanto acendia o último cigarro e apoiava a testa nas mãos jogando o isqueiro para longe.
Deixou as lágrimas correrem junto às palavras, rasgou cada pedaço dentro de si em letras e fonemas. Contou verdades e mentiras, todas recheadas de estrelas e borboletas, como ambos gostam. Descreveu o quarto onde passaram aquele verão como se ele jamais o tivesse visto, e provavelmente nunca o tinha daquela forma. Terminou algumas horas depois e, com os olhos inchados como estavam, a enviou pelo correio, se esperasse não o faria.
Passados dois meses, a campainha tocou e lá ele se encontrava, com uma pequena mala e o envelope amassado nas mãos. Apenas foi necessária uma frase:
“Seu único engano foi achar que te deixei.”

2 comentários:

Stutz disse...

Lindo, lindo, lindo.

Depois de empurrar o seu papel pra todos os monitores que estavam por perto e pro Matheus, já divulguei esse post pra mais meio milhão de pessoas. HAHAHAHAHAHA.
E tudo isso com meus comentários histéricos de: 'tá LINDO, eu quase CHOREI, leia, leia'.

Mas tá lindo, amiga.
É de uma simplicidade e de uma leveza, que sei lá. Dá vontade de viver isso.
Coisa linda, isso de consertar a vida em prosa. Escrever é uma excelente válvula de escape, mas só funciona bem com quem sabe usar as palavras (uian).

Vou parar de puxar saco, ok.

Clarissa Braga disse...

po, depois desse puxasaquismo todo ai de cima, eu fiquei até meio sem jeito de comentar.
hahaha
to brincando.

o que é gostoso nos seus textos é que eles são muito simples, você vai lendo e de repente se surpreende de uma forma tão gostosa que é como se aquilo pudesse acontecer com você.

bom, julia, muito bom.

=)